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A história das CEBs:
Elementos de reflexão
1. Um pouco de história das CEBs no Brasil.
1.1. Gênese das CEBs.
a) Gestação.
Houve a preparação do terreno para o aparecimento
das CEBs por parte da ACO (Ação Católica Operária),
com o MEB (Movimento de Educação de Base), com o Movimento
do Mundo Melhor, com os Planos de Pastoral da CNBB.
b) Nascimento.
Podemos localizar o nascimento das CEBs no final da
década de 50 e início da década de 60. Eles pipocaram
um pouco por todo o Brasil, no campo e na cidade.
c) Batismo.
O batismo das CEBs se deu com Medellín (1968). Inicialmente
eram chamadas de Comunidades Cristãs de Base: “Assim,
a comunidade cristã de base é o primeiro e fundamental
núcleo eclesial, que deve, em seu próprio nível, responsabilizar-se
pela riqueza e expansão da fé, como também pelo culto
que é sua expressão. É ela , portanto, célula inicial
de estruturação eclesial e foco de evangelização e
atualmente fator primordial de promoção humana e desenvolvimento”
.
d) Confirmação.
A confirmação se deu em Puebla (1979), mas antes as
CEBs já haviam encontrado sua legitimidade na palavra
do magistério universal na Evangelii Nuntiandi, 58:”...São
solidárias com a vida da mesma Igreja e alimentadas
pela sua doutrina e conservam-se unidas aos seus pastores”.
O Documento de Puebla assim se expressa: “As comunidades
eclesiais de base que em 1968 eram apenas uma experiência
incipiente amadureceram e multiplicaram-se sobretudo
em alguns países. Em comunhão com seus bispos e como
o pedia Medellín, converteram-se em centros de evangelização
e em motores de libertação e de desenvolvimento” .
e) Maturidade.
A maturidade das CEBs pode ser compreendida em três
momentos:
- O primeiro se dá com o Documento da CNBB (1982):
“Fenômeno estritamente eclesial, as CEBs em nosso
país nasceram no seio da Igreja-instituição e tornaram-se
“um novo modo de ser Igreja”. Pode-se afirmar que
é ao redor delas que se desenvolve, e se desenvolverá
cada vez mais, no futuro, a ação pastoral e evangelizadora
da Igreja” .
- O segundo momento acontece com o VI Encontro Intereclesial
das CEBs, em Trindade-Go (1986), onde se cunhou a
expressão – CEBs: Um modo novo de toda a Igreja ser.
Visa-se com tal expressão mostrar que o espírito das
CEBs deveria fermentar toda a instituição eclesial
a partir da opção pelos pobres.
- O terceiro momento pode ser compreendido a partir
da feliz expressão de D.Pedro Casaldáliga – CEBs:
O modo normal de toda a Igreja ser. Esta expressão
quer significar que as questões fundamentais defendidas
pelas CEBs devem ser assimiladas por toda a Igreja-instituição,
pois fazem parte da defesa da vida. Por detrás desta
vivência está presente a intuição do Vaticano II,
sobretudo da Gaudium et Spes (nos.1.11)
1.2. Encontros Intereclesiais das CEBs no Brasil e fundamentos
teológicos.
Os Encontros Intereclesiais de CEBs mostram a caminhada das CEBs
e seus temas mostram como elas se inserem na realidade
da vida do povo. Revelam também a aquisição feita
pelas Cebs, nestas últimas décadas.
1.2.1. Os temas dos encontros.
I - 1975 – Vitória-ES - Uma Igreja que nasce do Povo
pelo Espírito de Deus.
II - 1976 – Vitória-ES - Igreja, Povo que caminha.
III - 1978 – João Pessoa-PB - Igreja, Povo que se
liberta.
IV - 1981 –Itaici-Indaiatuba-SP - Igreja, Povo oprimido
que se organiza para a libertação.
V - 1983 – Canindé-CE - Igreja, Povo unido, semente
de uma nova sociedade.
VI - 1986 – Trindade-GO - Cebs, Povo de Deus em busca
da Terra Prometida
VII - 1989 – Duque de Caxias-RJ - Cebs, Povo de Deus
na América Latina a caminho da libertação.
VIII - 1992 - Santa Maria RS - Cebs, Povo de Deus
renascendo das culturas oprimidas.
IX - 1997 - São Luís-MA - Cebs, Vida e Esperança nas
massas.
X - 2000 - Ilhéus-BA – Cebs, Povo de Deus, 2000 anos
de caminhada.
XI – 2005 – Ipatinga-MG – Cebs, espiritualidade libertadora: Seguir
Jesus
no compromisso com os excluídos (em preparação).
1.2.2. Elementos teológicos
do Povo de Deus.
. Consciência de ser Povo e Povo de Deus.
A consciência de ser povo e de formar uma comunidade parece estar
na base da vivência das Cebs, bem na perspectiva do
Vaticano II: "Aprouve a Deus santificar e salvar os
seres humanos não singularmente, sem nenhuma conexão
uns com os outros, mas constituí-los num povo, que
o conhecesse na verdade e santamente o servisse" (L.G.,9,24;
cf. 9,26). A dimensão da fé comunitária e a salvação
na perspectiva coletiva estão presentes na caminhada
das Cebs. Os nomes e os escritos do Novo Testamento
são comunitários. "A comunidade eclesial é a matriz
da fé do cristão/ã" .
. Consciência de ter uma história.
Povo que caminha sabe que conta com a história. Tem uma raiz. Articula-se
com uma tradição (Bíblia: leitura orante e comprometida):
No êxodo, constitui-se como povo, que tem consciência
de sua origem nos Patriarcas, em Adão e Eva e encontra-se
em Deus como origem da vida e do mundo. Vê em Jesus
a dinâmica de toda a história e o relançador do Projeto
de Deus no Projeto do Reino, com carinho especial
- opção pelos pobres (Lc.4,14-30; Mt.11,2-6. 25-26;
Lc.7,18-23). Em Medellín, essa opção pelos pobres
assume toda sua dimensão teológica (A opção pelos
pobres é uma opção teocêntrica). Hoje essa opção pelos
pobres parece sofrer, por parte da Igreja-instituição
um certo ocultamento, como acontece no Documento Ecclesia
in America, onde a questão dos pobres fica ofuscada
por outras prioridades.
. Consciência de ser Povo Portador de uma Mensagem de libertação-salvação.
A mensagem fundamental é o Evangelho de Jesus, o carpinteiro da
Galiléia. Por isso, a missão fundamental do Povo de
Deus é a de Evangelizar. A missão da Igreja é Evangelizar.
Por isso ela se torna sacramento ou sinal e instrumento
da união dos seres humanos com Deus. Hoje, por vários
motivos, sobretudo por causa de suas opções não tão
evangélicas, parece que estamos vivendo um inverno
na Igreja! Entretanto, por ter consciência de ser
a portadora desse Evangelho, o Povo de Deus (Igreja)
compreende-se como povo messiânico (LG.,9) e missionário
(L.G.9,26). A mensagem da salvação-libertação deve
atingir todas as dimensões da vida humana: econômica,
política, cultural, pedagógica, erótica-sexual, litúrgica
e também ecológica (libertação da natureza - cf. Rm.8,18-25).
A Igreja, Povo de Deus, tem em primeiro lugar uma
referência a Jesus e seu Evangelho; em segundo lugar,
à comunidade dos santos - comunidade santificante
e, finalmente, como comunidade institucional visível
. Ela é Igreja de Deus e Povo de Deus.
. Consciência de ser um corpo organizado: organicidade e diversidade
do Povo de Deus.
As Cebs descobrem o valor da comunhão nas diferenças e vão concretizando
através da ministerialidade do Povo de Deus o sacerdócio
comum dos fiéis (LG., 10). Há novas práticas que apontam
para um novo horizonte de compreensão da participação
dos fiéis na Igreja. A Igreja é Povo de Deus que busca
uma convivência que se expressa também nos serviços,
nos movimentos, nas estruturas de articulação e no
catolicismo popular .
. Consciência do serviço-solidariedade universal (humana e cósmica).
A descoberta da solidariedade, da compaixão, da misericórdia faz
parte integrante da caminhada das Cebs. A afirmação
de ser semente de uma nova sociedade (1986) quer indicar
o "papel protagônico no Projeto-processo mais amplo
de uma Igreja dos Pobres" e que contribui para a construção
de novas relações sociais entre as pessoas e os diferentes
grupos humanos, para a construção de uma sociedade
mais equilibrada, fraterna e solidária, onde acontecem
as antecipações do Reino. O importante é o espírito,
a referência inspiracional e não uma forma ou uma
estrutura específica. Há "um tecido novo com práticas
novas" .Um novo modo de ser.
A experiência das Cebs reencontra a prática de Jesus e seu sonho:
reconstruir uma Igreja da misericórdia, que faz descer
da cruz os povos crucificados e que se torna co-responsável
na construção de uma solidariedade universal sobretudo
com os pobres e excluídos .
Redescobre-se, na prática das Cebs, a dimensão profética: luta
pela justiça e entrega da vida pelas vidas na doação
de nossos mártires que reeditam o martírio de Jesus.
Também essa dimensão tem sido ocultada nos últimos
pronunciamentos oficiais. Faz parte do inverno da
Igreja. No entanto, as Cebs retomam a memória perigosa
e continuam celebrando a vida dos mártires: ladainhas,
caminhadas, romarias...
As Cebs estão também se despertando para o grande
sonho-desejo expresso por Jesus: "Que todos sejam
um"! A dimensão ecumênica que despontou no encontro
de Duque de Caxias (1989), vem dando seus frutos.
A abertura ecumênica e macro-ecumênica tem sido, na
América Latina, fruto nascido do serviço comum à missão
libertadora (ecumenismo e diálogo religioso práxicos).
Essa dimensão abre o caminho para o reconhecimento
da alteridade e a beleza das diferenças (negros, índios,
migrantes, mulheres, jovens, crianças), exigindo nova
reflexão sobre as questões étnicas, de gênero e de
geração, sem desprezar a questão básica das relações
de classe. Estamos num novo momento de aprendizagem,
onde a nova hospitalidade exige hospedar os outros
dentro de nós . O respeito pela alteridade aponta
para o desafio da inculturação libertadora e a construção
de um projeto de Igreja ecumênico, aberto às diferenças
e ao diálogo num mundo plural e que tenha os pobres
como seu referencial básico.
2. Questões sobre a Eclesialidade das CEBs.
As CEBs nascem no Brasil e em toda a América Latina e Caribe impulsionadas
pelo espírito do Vaticano II. Em Medellín (1968),
elas são reconhecidas como “primeiro e fundamental
núcleo eclesial, que deve, em seu próprio nível, responsabilizar-se
pela riqueza e expansão da fé, como também pelo culto
que é sua expressão. É ela, portanto, célula inicial
de estruturação eclesial e foco de evangelização e
atualmente fator primordial de promoção humana e desenvolvimento”
(Medellín, 15. Pastoral de Conjunto, no.10).
As CEBs são Igreja a partir da base. Buscam responder as questões
vindas do cotidiano. São Igreja em nosso tempo. Por
isso, muitas vezes, foram e são incompreendidas, como
o próprio Jesus e as primeiras comunidades cristãs
em seu tempo. Isto aconteceu e acontece com as CEBs
do Brasil, quer do ponto de vista sócio-político,
como também do ponto de vista eclesial. Queremos mostrar
como acontecem essas tensões pelo fato das CEBs buscarem
estar presentes em seu tempo.
2.1. Na década dos 70: As CEBs são eclesiais?Neste período, notamos
uma dupla problemática, retratada no no. 58 da Evangelii
Nuntiandi, texto fundamental para a compreensão
das CEBs no interior da Igreja Universal: De um
lado, fala-se de”comunidades de base com um espírito
de crítica acerba em relação à Igreja, que elas
estigmatizam muito facilmente como “institucional”
e à qual elas se contrapõem como comunidades carismáticas,
libertas de estruturas e inspiradas somente no Evangelho”.
Essas comunidades de contestação são um fenômeno
especificamente europeu, que se colocavam à margem
da grande Igreja-Instituição, buscando autonomia
e independência. Por outro lado, há comunidades
“que brotam e desenvolvem-se (...) no interior da
Igreja, e são solidárias com a vida da mesma Igreja
e alimentadas pela sua doutrina e conservam-se unidas
aos seus pastores”. Estas CEBs mostraram, de diferentes
modos, estar ligadas à Igreja, mesmo quando não
eram compreendidas ou aceitas pelos pastores locais.
Com o passar do tempo, essas CEBs provaram ser profundamente
eclesiais, tendo bispos e cardeais que as apóiam
e apontam como presença viva de Jesus no meio do
povo pobre e excluído.
2.2. Na década dos 80: Perigo da politização.A problemática girava em torno das comunidades comprometidas
com o social. Afirmava-se o perigo da politização,
da manipulação, da radicalização ideológica (cf.
Puebla, 98. 630). Havia um medo das CEBs se tornarem
extensão dos partidos. Porém, no caminhar da história,
constatou-se que as CEBs davam e continuam dando
identidade de fé aos cristãos e cristãs que se comprometem
com o processo de libertação. A caminhada histórica
das CEBs demonstra que o engajamento político não
é empecilho para sua eclesialidade.2.3. Década
dos 90: Questão do diálogo ecumênico e inter-religioso.A grande questão,
neste momento, se relaciona com a vivência ecumênica
e o diálogo inter-religioso. Esta problemática esteve
presente no 7o. Intereclesial em Duque de Caxias-RJ
e, de modo ainda mais premente, no 8o. Intereclesial
em Santa Maria. A questão era a relação eclesialidade
e confessionalidade: como manter a identidade católica
e ao mesmo tempo relacionar-se com as outras Igrejas
e religiões? Aqui também o tempo deu razão às CEBs.
Na Campanha da Fraternidade de 2000, tivemos, pela
primeira vez, uma campanha ecumênica. O próprio
João Paulo II convocou os lideres das religiões
para rezarem em Assis. 2.4. Hoje – 2000-2005: Qual o lugar das CEBs na estrutura
de Igreja?Hoje, não há problema
de ruptura. Há preocupação com a autonomia. Não
há mais preocupação com a manipulação política,
pois mesmo havendo ligação com o PT, o MST, não
há fusão ideológica. Não há mais preocupação com
o reducionismo político, pois se constata uma catolicidade
ecumênica. Todas essas questões, superadas no tempo pela fidelidade ao
projeto de Jesus, mostram que as CEBs estão no seu
tempo. Hoje elas apontam para um novo estatuto eclesial,
para que fique bem nítido seu papel no interior
da Igreja-Instituição. As CEBs continuam sendo comunidades
conseqüentes com a prática histórica de Jesus. Elas
são vitais para a Igreja Universal.
3. CEBs: Elementos fundamentais.
Para se compreender o que é uma CEB, é preciso analisar seus elementos
fundamentais. Por isso, vamos analisar o seguinte
esquema que nos oferece uma perspectiva de compreensão:
JESUS CRISTO
São evangélicas
PASTORES CEBs IGREJA
Ligação canônico- Eclesialidade UNIVERSAL
Pastoral Catolicidade
Ecumenicidade
MUNDO
SOCIEDADE
Compromisso social
3.1. Auto-definição de eclesiais.São eclesiais, porque
são comunidades. Igreja é essencialmente comunidade.
Ajudam a eclesializar a Igreja (circularidade de
vida, comunhão, fraternidade). Ainda mais, na América
Latina, envolvem os pobres e reinventam a Igreja
. Há uma centralidade dos pobres. Gustavo Gutiérrez
fala em irrupção dos pobres na Igreja e na sociedade.
3.1.1. Ligação
fé-vida: A grande novidade da(s) Igreja(s)
na América Latina é a entrada de cristãos/ãs na
luta política de libertação dos pobres/excluídos.a) Entrada nos movimentos
populares de reivindicações.b) Entrada e participação
nos movimentos específicos:- Luta pela Terra:
ocupações com a participação ativa das CEBs.
- Luta das mulheres: Grupo de mulheres da periferia.
- Luta dos negros.
- Descoberta do ser gente
- Valor das culturas
- Relação de gênero.
- Defesa da natureza (ecologia).c) Entrada no movimento
sindical: a grande questão da luta ideológica e
a primazia do trabalho sobre o capital.
- Descoberta da força do trabalhador.
- Valor da organização sindical e sua influência
na política.d) Entrada nos partidos políticos com
proposta popular.? Valor da participação política
como exigência da cidadania.
- Importância do projeto de sociedade (plantar alface,
couve ou plantar castanheira e pinheiro araucária?).e)
As Pastorais sociais (Saúde, Criança, Mulher Marginalizada,
Operária, Negros, Menor) como fruto do engajamento
dos cristãos/ãs concretizando a opção da Igreja
pelos pobres: caminho de cidadania.- As pastorais
sociais levam para dentro da Igreja a importância
do engajamento.
- Procuram traduzir a importância de uma Igreja
comprometida com as lutas sociais.
- Iniciam o processo de ser cidadão/ã a partir das
comunidades.3.1.2. Novidades a partir da
experiência das CEBs: A Mística e a Espiritualidade
da Libertação.Com a entrada dos cristãos
e cristãs na luta política de libertação dos pobres
e excluídos na América Latina e Caribe, o Espírito
suscitou uma nova experiência eclesial, definida
pela ligação fé-vida e que gerou:a) Um novo modo
de viver a fé: A Igreja assume os novos desafios
do mundo de hoje. Os cristãos e cristãs, movidos
pelo Espírito do Ressuscitado (a cristologia é vista
como o seguimento de Jesus no Espírito, mostrando,
portanto a ligação da missão do Filho e a missão
do Espírito), abrem-se para os problemas do mundo:
”As alegrias e as esperanças, as tristezas e angústias
dos homens e mulheres de hoje, sobretudo dos pobres
e de todos os que sofrem, são também as alegrias
e as esperanças, as tristezas e angústias dos discípulos
de Cristo. Não se encontra nada verdadeiramente
humano que não lhes ressoe no coração”(GS,1).b)
Um novo modo de transmitir a fé: Uma nova leitura
da Bíblia a partir do pobre-excluído (classe), a
partir da mulher (gênero), a partir das diferentes
culturas (etnia) e a partir dos idosos, jovens,
crianças (geração). Encontramos também no interior
de todo esse processo uma nova forma de fazer teologia
e uma nova catequese, fazendo a ligação fé-vida
e muito mais martirial.c) Um novo modo de celebrar
a fé: A partir da ligação fé-vida, a liturgia expressa-se
a partir das diferentes culturas (inculturação)
e celebra as lutas em defesa da vida, com grande
respeito pela alteridade do outro. Mas mesmo com
todas estas experiências e lutas, a pergunta que
sempre volta é: “O que é uma CEB”? O que é preciso
para se ter uma CEB? E é sempre difícil explicar!
É tão difícil como responder às perguntas: O que
é o amor? A liberdade? A vida? Estamos praticamente
na mesma relação! Mas sempre é importante se dar
uma certa definição. Há, na verdade, algumas convergências,
alguns elementos constitutivos de uma CEB.1o. Elementos
materiais (corpo).1) Grupo de fiéis batizados (suficientemente
desenvolvido) e que celebra (celebração ou culto
regular, semanalmente, quinzenalmente) com ou sem
eucaristia.2) Integrado por gente das classes populares
(pobres), tendo pessoas de outras classes, mas não
majoritariamente. A CEB tem sua identidade histórica
nos pobres em sentido sociológico e, desta forma,
o sentido de “base” veicula as seguintes características
em sua constituição: pobre, popular (rosto do povo),
celular, leiga, de luta, cristológica.3) Em torno
da Palavra de Deus (Bíblia): A palavra faz parte
constituinte de uma comunidade de base. A Bíblia
é a companheira da CEB.2o. Elementos formais (alma).1)
Partilha da palavra em confronto com a vida.2) Participação
nos serviços (ministérios): coordenação, liturgia,
catequese, canto. As CEBs são participantes.3) Compromisso
no social: A palavra de Deus induz à ação. Podemos
lembrar aqui a grande novidade da Igreja na América
Latina: A entrada (inserção) de cristãos e cristãs
na luta política de libertação dos pobres e excluídos
(Ligação Fé-Vida). Podemos nos perguntar: Como vai
nossa fé? Como vai nosso compromisso? Como vão nossas
lutas?3.2. Relação fundante das CEBs
– Identidade originária: Jesus Cristo (Puebla, 641).-
É a ligação com Jesus Cristo a ligação constitutiva:
Por causa da palavra de Jesus Cristo. Por causa
do Espírito de Jesus Cristo. Por causa do seguimento
de Jesus Cristo. Jesus é o fundamento estrutural
das CEBs. Isto significa que a cristologia vem antes
da eclesiologia. A realidade fundacional das CEBs
é Jesus Cristo. São Paulo fala que não há outro
fundamento! Isto está presente já no 1o. Intereclesial:
Igreja que nasce do Povo pelo Espírito de Deus.
Por isso, são evangélicas. São realidade mistérica.
As Cebs são uma experiência cristã integral (Pe.
Henrique de Lima Vaz). D. Pedro Casaldáliga fala
do modo normal de ser Igreja. (Cf. GS,1.11).
- De acordo com o Vaticano II, uma Igreja para ser
Igreja deve ter três elementos: Fé, sacramentos
e comunhão.
- Qual a característica específica das CEBs na América
Latina? Primeiramente é ter seu fundamento em Jesus
Cristo. Segundo aprofundar a presença do Espírito
(valor e risco do movimento carismático: perigo
do pneumatomonismo), para suspender o cristomonismo
e buscar o aprofundamento da Trindade (já presente
no 6o. Intereclesial – Trindade - 1986): A Trindade
é a melhor comunidade! Houve a apresentação da proposta
do modelo da Trindade para a Igreja e para a sociedade.3.3.
Compromisso social.- Luta pela libertação
em todos as dimensões: econômica, política, cultural,
erótico-sexual, pedagógica, litúrgica, ecológica.
- Luta pela justiça.
- Defesa da vida das pessoas e da natureza. Luta
sempre a partir da fé, visando a libertação. Há
sempre o perigo de funcionalizar (instrumentalizar)
a fé em função da luta social. A própria leitura
da bíblia pode correr este risco, na medida em que
se faz uma leitura para fundamentar a luta social.
É um risco que deve ser evitado.3.4. Relação
com os pastores.- É a micro-Igreja na macro-Igreja.
A Ecclesiola na Ecclesia. As CEBs estão na Igreja
Católica mas com abertura para a ecumenicidade (LG,13);
Igreja como Povo católico.
- As CEBs em relação com as outras CEBs:
- Com as paróquias, para transformá-las em redes
de comunidades, com formas alternativas de organização
(em forma de rede – paróquias sem matriz).
- Abertura para outros movimentos de Igreja (como
os carismáticos, buscando criar formas de comunhão!).
- As CEBs são a Igreja em movimento.
- Nesta relação com a grande Instituição, sua inserção
institucional pode trazer vantagens: apoio, assessoria
e estrutura.
- O papa fala de três exigências por parte dos pastores
em relação às CEBs: manter a autonomia, a eficácia,
e a sobrevivência. Entretanto, notamos limites na
atual situação: As CEBs são dependentes do padre
para a eucaristia; dependente do pastor, pois não
têm estatuto canônico (é figura teológica, mas não
é figura jurídica!).
- Exigências das CEBs para com os pastores: união
com os pastores (mas se deve perceber o risco, pois
o poder é monocrático): Quando o bispo quer tudo
corre bem! Quando o bispo não quer fica mais difícil.
3.5. Ligação com a Igreja UniversalAs
CEBs não devem se preocupar em ser o modo novo de
toda a Igreja ser, pois isto parece ser impossível
do ponto de vista sociológico e não desejável do
ponto de vista teológico, pois o pluralismo é saudável!
Neste sentido, as CEBs “devem fortalecer sua catolicidade
prática, jamais considerando-se ‘como o destinatário
único ou como o único agente de evangelização’,
mas sempre abertas à universalidade que requer qualquer
tarefa de anúncio do Evangelho” .
4. Perspectivas pastorais a partir das Cebs
para um novo modelo eclesial e sua contribuição para
a construção de uma nova sociedade.
4.1. Eclesiologia: Modelos em conflito.IGREJA
SOCIEDADE PERFEITA
EM OPOSIÇÃO AO
MUNDO LUGAR DO PECADO
Antes do Vaticano II, este era o modelo reinante
e que determinava a forma da Igreja atuar em relação
à sociedade. Sentia-se como aquela que tem a verdade
acima de todos e, portanto, acha-se no direito
de ditar as regras para todas as dimensões da
sociedade.
4.2. Modelo
Jurídico-patriarcal X modelo comunidade ministerial
igualitária.Mesmo após o Vaticano
II, notamos a persistência deste modelo, embora
com algumas modificações. O quadro abaixo procura
dar uma visão do que mudou e do que ainda persiste.MODELO JURÍDICO-PATRIARCAL
MODELO DE COMUNHÃO
MODELO INSTITUCIONAL-HIERÁRQUICO COMUNIDADE MINISTERIAL
IGUALITÁRIA
IGREJA SOCIEDADE PERFEITA IGREJA-COMUNHÃO – REALIDADE
SALVÍFICA TRANSCENDENTE – MISTÉRIO – SACRAMENTO
CRISTANDADE: FORA DA IGREJA NÃO HÁ SALVAÇÃO SOCIEDADE
PLURAL: SALVAÇÃO VEM DE DEUS – NOVO ECUMENISMO
PATRIARCALIZAÇÃO DA IGREJA: LEGITIMADA PELA ONTOLOGIZAÇÃO
DO SEXO BIOLÓGICO DE JESUS QUE ADQUIRIU UM SIGNIFICADO
TEOLÓGICO NOVO PARADIGMA ECLESIAL:
PRESENÇA CADA VEZ MAIS SIGNIFICATIVA DA MULHER
NA ESFERA ECLESIAL E NOVAS DEMANDAS EM RELAÇÃO
À SUA PARTICIPAÇÃO NA IGREJA
ECLESIOCENTRISMO TEOCENTRISMO – PNEUMATOCENTRISMO
– REINOCENTRISMO COSMOCENTRISMO
IDENTIDADE DOUTRINAL IDENTIDADE PRÁXICA
4.3. CEBs
e o novo paradigma eclesiológico
AS CEBs CONSTITUEM A ESTRUTURA BÁSICA E O FUNDAMENTO
ATUAL DESSE NOVO PARADIGMA ECLESIOLÓGICO
ESSE PARADIGMA EMERGE DAS EXPERIÊNCIAS CONCRETAS
DAS COMUNIDADES CRISTÃS POPULARES NAS QUAIS MULHERES
E HOMENS VIVEM E INTERPRETAM A FÉ EM CHAVE EVANGÉLICA
INCLUDENTE E TRANSFORMADORA
COMUNIDADE MINISTERIAL IGUALITÁRIA COM AS MARCAS
DA
PARTICIPAÇÃO CRIATIVA
RECONHECIMENTO PLENO DAS ALTERIDADES (GÊNERO E
ETNIAS)
RESPONSABILIDADE EQUIVALENTE
EXIGÊNCIA DA REFORMULAÇÃO TEOLÓGICA DOS MINISTÉRIOS
NOVO ECUMENISMO
MARTIROLÓGIO LATINO-AMERICANO
4.4. A missão
do cristianismo é fundar comunidades: As CEBs
possuem as marcas fundamentais da comunidade.4.4.1. A ligação
fé-vida: partilhar a vida, lutar pela justiça,
ser solidários/as com os irmãos e irmãs.
4.4.2. Opção pelos pobres como opção teocêntrica:
Esta não pode faltar, pois é o centro do Evangelho
de Jesus (cf. Mt. 9,35-36; Lc.4,14-30; Mt. 11,2-6.
25-26; Mt.25,31-46). A opção pelos pobres é uma
opção teocêntrica! Mesmo convivendo com os conflitos,
os pobres não podem sair do horizonte das Cebs
(cf. Gal.2,1-14).4.4.3. Leitura popular e orante da Bíblia: Sem Bíblia não pode
haver comunidade de base. Daí a importância dos
círculos bíblicos, grupos de quarteirão para aprofundar
a Palavra de Deus e ligá-la com a realidade.4.4.4. Ser Igreja - Povo de Deus: Consciência de ser Povo de
Deus. CEBs, Povo de Deus, 2000 anos de caminhada.
Grande afirmação do Concílio Vaticano II. Igualdade
fundamental (LG,32): Participação na dimensão
profética, na dimensão sacerdotal, na dimensão
real.4.4.5. Espiritualidade da Libertação: Há várias características
da espiritualidade das CEBs:? Libertária, pois
visa a mudança, a transformação da sociedade.
- Martirial: é solidária, cheia de compaixão.
- Dialogal: é ecumênica, coloca-se na linha do
diálogo inter-religioso.
- Ecológica: Tem ternura pela vida; abre-se para
o valor da natureza.
- Poética: traz sempre a utopia do Reino anunciado
por Jesus: "Podem destruir uma árvore. Matar uma
flor. Mas não impedirão a primavera".4.4.6. Igreja toda
ministerial: Carismas, serviços, ministérios .
4.4.7. Papel da
mulher na(s) Igreja(s): A grande maioria é de
mulheres na Igreja. Legitimidade de suas justas
aspirações. Avanços na teologia feminista levando
a sério a relação de gênero. Nova leitura da Bíblia
a partir da ótica da mulher (pobre, negra, indígena).4.4.8. A presença
dos jovens: Desafio frente ao mundo globalizado
de forma neoliberal e exigência de uma religião
de opção. Desafio da formação e aprofundamento
da fé.
4.5. Diálogo
ecumênico e inter-religioso: Condições para o
diálogo ecumênico e inter-religioso.4.5.1. Humildade:
A humildade se contrapõe ao sentimento de superioridade
e auto-suficiência.? Somos peregrinos
da verdade, companheiros/as de uma viagem fraterna.
- Ninguém pode ter a pretensão de ter assimilado
plenamente a Verdade.4.5.2. Reconhecimento
do valor da alteridade.? “Hermenêutica
da diferença” e não “lógica da - Reconhecimento
da integridade da fé dos interlocutores ( empatia
+ simpatia).4.5.3. Fidelidade
à própria tradição.Permanecer firme
na convicção religiosa, mantendo a identidade
cultural e religiosa.4.5.4. Abertura à verdade.? Estar aberto às
novas dimensões do mistério divino.
- A verdade cristã contém três elementos (Claude
Geffré):
a) Ordem do testemunho: incondicionalidade da
fé como algo aceito e não provado.
b) Ordem da antecipação: Estar sempre aberto/a
à novidade da história, pois a verdade cristã
tem uma dimensão escatológica.
c) Verdade compartilhada: A verdade é relacional,
pois tudo está relacionado entre si.4.5.5. Compaixão ativa.? Ter entranhas
de misericórdia ( Mt 9,36; Lc 10,33), remediando
todas as formas de sofrimento ( saber cuidar).
- Compreender a universalidade do pobre a partir
do sofrimento e sua universalidade, pois aí está
o terreno comum para o encontro inter-religioso.
FORMAS DE
DIÁLOGO
1. Cooperação religiosa
em favor da paz: campo da ética e das ações conjuntas.
2. Intercâmbios teológicos: troca de experiências
a partir dos patrimônios religiosos.
3. Diálogo da experiência religiosa: oração e
contemplação na linha da experiência espiritual.
4.6. Ecologia:
Importância da inter-relacionalidade – Tudo está
interligado. Podemos relembrar
o discurso do índio Pele-Vermelha Seattle (1854):
"Ensinarão vocês às suas crianças o que ensinamos
às nossas? Que a terra é nossa mãe? O que acontece
à terra acontece a todos os filhos da terra. O
que sabemos é isto: a terra não pertence ao homem,
o homem pertence à terra. Todas as coisas estão
ligadas, assim como o sangue nos une a todos.
O homem não teceu a rede da vida, é apenas um
dos fios dela. O que quer que ele faça à rede,
fará a si mesmo. Uma coisa sabemos: nosso Deus
é também o seu deus. A terra é preciosa para ele
e magoá-la é acumular contrariedades sobre o seu
criador... Assim como nós somos parte da terra,
vocês são parte da terra. Esta terra é preciosa
para nós, também é preciosa para vocês. Uma coisa
sabemos: existe apenas um Deus. Nenhum homem,
vermelho ou branco, pode viver à parte. Afinal,
somos irmãos"
4.7. Direitos Humanos: Crescimento da consciência
dos Direitos Humanos.
4.8. Pastoral
Urbana: Pensar a cidade como um todo.
Estamos diante de um grande desafio. Há pequenas
experiências, mas temos muito caminhar!
4.9. Desafios para o Século XXI: Recorremos à palavra
de D. Pedro Casaldáliga, o profeta da justiça
e da esperança: “O Século XXI ou será místico
ou não será humano. O Século XXI cristão optará
pelos excluídos ou não será cristão. O Século
XXI cristão ou será ecumênico ou não será eclesial.
O Século XXI ou será ecológico ou simplesmente
não será”. Esta afirmação de D. Pedro indica que
devemos incorporar ao projeto de uma nova sociedade
e, portanto, de um outro mundo possível, o místico,
a opção pelos excluídos, o ecumenismo e o ecológico.
São desafios que devemos enfrentar com muita ousadia,
criatividade e esperança!
5. Exigências de uma nova mística e espiritualidade
hoje.
A realidade em que vivemos é complexa e apresenta duas características
bem marcantes no nosso cotidiano: uma sociedade contraditória
e uma sociedade fragmentada. Contraditória, pois ao
lado de pessoas que exibem os importados mais sofisticados,
como carros, aparelhos eletrônicos, internet, encontramos
pessoas que não têm sequer o que comer. Ao lado de
gastos astronômicos em festas, comemorações, podemos
encontrar escolas sem giz e hospitais e postos de
saúde sem gaze, algodão e seringas para aplicar injeção
em pacientes em perigo de vida. Fragmentada, quer
ao nível sócio-econômico, com pessoas integradas no
mundo do trabalho com ótima remuneração, ao lado de
milhões de desempregados/as e subempregados/as, que
não sabem como encontrar o alimento para seus filhos/as.
Fragmentada ainda em nível cultural e religioso, pois
numa mesma família, encontramos pessoas de diferentes
crenças e pertencentes a diferentes Igrejas ou religiões.
Por isso, em momentos de crise a espiritualidade e a mística são
de fundamental importância, pois elas podem dar sustentação
às lutas. Nessa nova fase de desenvolvimento do capital
em sua forma neoliberal, há necessidade de uma nova
espiritualidade. Espiritualidade que se preocupa com
os excluídos, gerados pelo neoliberalismo. Hoje embora
ainda haja perseguição e morte, sobretudo no campo,
já não há uma repressão direta e contínua por causa
das lutas. O que se nota é um processo de cooptação
e de destruição da pessoa através do ostracismo ou
mesmo pelo processo do desemprego estrutural, que
vai minando a força dos trabalhadores. A mística exigida
hoje é outra: manter a identidade, quando tudo ao
nosso redor se desfaz. Por isso podemos descobrir
novas exigências para a mística e a espiritualidade
que buscam sustentar um projeto de uma nova sociedade
e de um novo modelo de Igreja. Queremos apontar algumas
características dessa nova mística, sem a pretensão
de esgotar todas as suas potencialidades.
5.1. Uma espiritualidade do corpo.
5.1.1. "Com os pés no chão".A espiritualidade
e a mística presentes nas CEBs se caracterizam pela
referência constante à realidade. Uma verdadeira
paixão pela realidade. Fala-se em ser honesto com
o real. Toda ação, toda abordagem, toda teoria,
todo estudo, toda vivência, todo projeto deve partir
da realidade e voltar à realidade. Ter os pés no
chão significa também partir de baixo para cima.
Ter visão indutiva. Respeitar a participação da
base. Também partir de dentro para fora. O processo
da conscientização que leva a pessoa a se decidir
livremente e não de forma autoritária. Por isso
é que somos marcados ainda pelo método ver-julgar-agir-celebrar-avaliar
. Esta dimensão da mística nos tem levado a assumir
com muita firmeza a luta política. Com a crise do
socialismo histórico, enfrentamos também a crise
da utopia. Hoje fala-se na busca de novos paradigmas
para podermos compreender a realidade. O processo
vivido pelo Fórum Social Mundial, iniciado em 2001,
e hoje, em seu terceiro ano, tem mostrado que um
outro mundo é possível, rompendo desta forma a afirmação
neoliberal do fim da história.5.1.2. "Com o coração"O movimento carismático,
tanto católico quanto protestante, mas sobretudo
a influência do mundo oriental, estão chamando nossa
atenção para o valor e importância da subjetividade.
Como afirma L.Boff, "o processo de mundialização
não se faz somente via economia, mercados articulados
mundialmente, via ciência e técnica, mas também
via subjetividade, mística, aprendizado uns dos
outros, para descobrir a riqueza que carregamos
sem saber, da qual nós, ocidentais, somos às vezes
extremamente pobres. Uma vez, conversando com um
mestre zen-budista de Sri Lanka, ele me disse:"
O erro de vocês é que têm o centro em cima, na cabeça,
por isso tudo está errado em vocês. Como fazer girar
o corpo humano se o centro está ali? É uma cambalhota
desorganizada. A Bíblia", acrescentou, "é um pouco
melhor, porque ela empurra o centro para o coração.
Nós, orientais, o temos na barriga, no umbigo. Nós
sentimos, pensamos e organizamos o mundo a partir
do centro umbilical, onde toda energia nos chega
e toda energia sai, e, assim, entramos no equilíbrio
cósmico. Vocês são desequilibrados e lançam seu
desequilíbrio ao mundo inteiro" . Esta perspectiva
tem muito a ver com a dinâmica bíblica e sobretudo
com o Novo Testamento, onde se fala que o amor de
Jesus é um amor que toca as entranhas (cf.Mt.9,35-36;
Lc.15,20; 7,13; 10,33; Mt.14,14; 15,32; 18,27; 20,34;
Mc.1,41; 6,34; 8,2; 9,22; cf.Is.49,14-16; Jer.31,31-34;
Ez.36,26-28).5.1.3. "Com
as mãos".Não há dúvida de
que a espiritualidade das Cebs está ligada à luta
de transformação social. Movidos pelo Deus da Vida,
o Deus defensor dos pobres e excluídos, movidos
pela prática de Jesus e seu seguimento, pela identificação
com os pobres, pela utopia do Reino e também movidos
pelo sofrimento do povo, pela indignação ética,
pela solidariedade, pelo valor da pessoa, pela consciência
de classe, pelo respeito à alteridade, pelo valor
da terra e pelo respeito à ecologia, os membros
das Cebs têm trabalhado muito para resistir à destruição
da pessoa humana e da natureza. As lutas continuam
em todas as dimensões, articuladas hoje com outros
segmentos sociais que também lutam contra a voracidade
do Capital mundializado. Está ficando cada vez mais
nítido que esta luta é difícl. É a luta de Davi
contra Golias. Mas temos que esperar apesar de tudo
indicar o contrário. Estamos indo na contra-corrente.
Por isso é que a exigência de espiritualidade tem
que ser ainda mais profunda. Podemos evocar os textos
de Paulo aos Rom.5,1-11 e 8,21-31.5.1.4. "Com
os olhos e ouvidos".As exigências para
a construção de um projeto de nova sociedade e de
um novo modelo eclesial são cada vez mais profundas.
Sem perder de vista o que já descobrimos, temos
que buscar novos caminhos e acentuar novos aspectos
que, ou estavam ofuscados ou não eram levados em
consideração. Uma das novas dimensões é a étnico-cultural.
A inculturação não mais como etapa prévia da evangelização,
mas como dimensão que a acompanha permanentemente
. Inculturação que deve levar a sério a alteridade.
Buscar a comunhão das diferenças. Trabalhar com
a perspectiva que as diferenças são valores para
a compreensão da vida em comunhão. Neste sentido,
a própria democracia tem se enriquecido com esta
perspectiva. O diferente não vem para atrabalhar,
mas para enriquecer o conjunto. Nossa espiritualidade
sempre se norteou pela Trindade. Jesus sempre nos
é apresentado como a porta de entrada para o conhecimento
da Trindade. No VI Encontro Intereclesial das CEBs
(Trindade,Go.-1986), ficou cunhada a expressão:
A Trindade como a melhor comunidade! Hoje somos
convidados a tornar esta expressão realidade. Pensar
Deus presente no mundo inteiro, em toda a Oikoumene.
Pensar no Deus da vida, no Deus do Cosmos, no Deus
de todas as etnias, culturas. Temos que viver e
pensar a vida a partir da dimensão ecumênica e do
diálogo religioso. Pensar a vida, sabendo que ela
não será viável se o desenvolvimento econômico,
guiado pelo neoliberalismo, continuar a destruir
pessoas, tidas como sobra, ou mesmo como lixo e
a destruir a natureza, o habitat de toda a criação!
Sem a dimensão ecológica, nossa espiritualidade
ficará pela metade e não seremos capazes de sustentar
a criação que Deus nos legou. É importante lembrar
com S.Paulo, que também a natureza "geme em dores
de parto esperando a libertação" (Rom.8,22-23).
Podemos evocar D. Pedro Casaldáliga, profeta da
justiça e da esperança, que nos alerta para as condições
exigidas dos cristãos e cristãs no novo milênio
: “O Século XXI ou será místico ou não será humano.
O Século XXI cristão optará pelos excluídos ou não
será cristão. O Século XXI cristão ou será ecumênico
ou não será eclesial. O Século XXI ou será ecológico
ou simplesmente não será”. Esta afirmação de D.
Pedro indica que devemos incorporar ao projeto de
uma nova sociedade e, portanto, de um mundo novo
possível, o místico, a opção pelos excluídos, o
ecumenismo e o ecológico. São desafios que devemos
enfrentar com muita ousadia, criatividade e esperança.5.2. A espiritualidade das CEBs se forja dentro de um
"novo tempo", com novos caminhos e novos aspectos.Sem perder o primeiro
amor (cf. Ap. 2,4), temos que enfrentar uma nova
conjuntura no processo de construção de uma nova
sociedade e um novo modelo eclesial. Há mudanças
claras que estão se operando e as Cebs também estão
buscando se posicionar frente a elas. Eis algumas
mudanças que estamos vivenciando : 5.2.1. Do
político para o social e o civil.Não quer dizer que
a dimensão política tenha desaparecido das Cebs,
mas percebe-se que há diferentes formas de se fazer
política e que podem estar ou não ligadas à política
partidária : no plano social (solidariedade) ou
no plano civil, através da luta de associações de
vizinhos, jovens, mulheres, direitos humanos, defesa
da ecologia, defesa da vida.5.2.2. Do êxodo ao exílio e do exílio ao êxodo.Estamos passando
por um momento onde a mudança das estruturas está
dando lugar à luta pela sobrevivência e à defesa
da vida cotidiana em tempos de neoliberalismo. Não
se consegue ver uma rápida mudança de estruturas
ou a tomada do poder pelas esquerdas, mesmo com
a realidade de se ganhar o governo de muitas cidades,
alguns estados e, hoje, o governo do país. Luta-se
ainda para sobreviver. Há luta, resistência. Estamos,
ainda, no exílio: tempo de paciência, resistência,
tempo de espera de dias melhores. Não significa
renunciar ao paradigma do êxodo, mas saber ter paciência
histórica em tempos de ídolos e sacrifícios. Ele
parece estar de novo se avizinhando. O Fórum Social
Mundial, em Porto Alegre, em sua terceira edição,
vaticinou a abertura de um novo tempo : um outro
mundo é possível! Podemos retomar o sonho. No Brasil,
a esperança venceu o medo! Há muita esperança na
mente e nos corações do povo.5.2.3. Do profético-apocalíptico ao sapiencial.Enfrenta-se a vida
no cotidiano. A profecia continua no horizonte,
mas sem o mesmo fervor do momento revolucionário.
Vive-se com o realismo do dia-a-dia, com sua pobreza,
suas contradições, num desejo contínuo de superação.
Tempo de oração confiante.5.2.4. De
um certo complexo de elite eclesial à religiosidade
popular.As Cebs se sentem
povo com o povo. Talvez em alguns momentos, tenhamos
tentado olhar de cima. Estamos sabendo reconhecer
os valores das diversas tradições humanas, culturais,
religiosas. Estamos percebendo que não somos os
únicos e nem os melhores! Fazemos parte da luta
do povo e estamos reconhecendo, que mesmo com contradições,
a força da mudança está nele, mesmo quando escondida!
5.2.5. Da
análise sócio-analítica à inclusão da mediação cultural.Estamos buscando
outros olhos para enxergar a realidade. Sem deixar
a análise sócio-econômica, estamos enriquecendo
a leitura da realidade com elementos antropológicos
e culturais. Estamos nos abrindo ao valor das diferenças.
Reconhecendo a alteridade. O valor do corpo. A importância
da festa, do lúdico, do simbólico para sustentar
alimentar a esperança e antecipar a utopia. Seguindo
a proposta da Agenda Latino-americana de 2002 –
As culturas em dialogo – podemos compreender melhor
esta nova exigência em nossa espiritualidade: «Todas
as culturas. Todas por igual. Numa ciranda divinamente
humana, entrelaçada pelo arco-íris da convivência
e da paz. Não num choque de civilizações..., mas
numa complementariedade fraterna. Um diálogo que
escuta e fala, que acolhe e dá, que respeita e admira
e se emociona como num encontro amoroso. Sem fundamentalismos.
Sem etnocentrismos prepotentes. Sem hegemonias preconceituosas.
Sem culturas dominantes e culturas oprimidas. Para
que o mundo plural seja cada vez mais fundamentalmente
humano. «Quanto melhor (se) respeitem as peculariedades
das diversas culturas, tanto mais se promove e se
expressa a unidade do gênero humano», ponderava
já o Vaticano II, em seu documento, tão sensivelmente
humanista, Gaudium et Spes (54)» .5.2.6. Do
voluntarismo da práxis à experiência da gratuidade.Diante das dificuldades
de se realizar a mudança estrutural, o compromisso
político, um tanto quanto voluntarista e ético,
das Cebs, está cedendo lugar a um compromisso mais
amplo, levando em consideração a oração, a gratuidade
da vida, a experiência da vida em comunidade. O
compromisso se torna menos arrogante e, portanto,
mais gratuito. Caminha na linha da doação, de entrega,
e menos na linha impositiva.5.2.7. De
uma Igreja patriarcal a uma comunidade familiar
com rosto feminino.As Cebs sempre são
reconhecidas por sua dimensão leiga e ministerial.
A presença da mulher também sempre foi percebida.
Mas hoje a compreensão do papel da mulher na sociedade
e na Igreja deve oferecer mais espaço para a participação
da mulher e refletir o rosto materno de Deus, através
da sabedoria própria da mulher.
6. Espiritualidade de resistência e esperança.
É certo que estamos remando contra a corrente. Neste processo não
pode haver desânimo, pois parar de remar significa
voltar atrás. Não podemos deixar de manter as descobertas
e conquistas já feitas. Frente ao novos desafios do
neoliberalismo, temos que buscar novos caminhos, lembrando
que caminhando se abre caminho! O neoliberalismo proclama
o fim da história e o fim das utopias. Nós continuamos
a acreditar que Deus é o Deus da História e, portanto,
a história continua, pois Deus é maior. O neoliberalismo,
através de seus intelectuais, afirma que quem quer
o céu na terra, acaba construindo o inferno. Nós continuamos
a reconstrução do céu, para poder transformar a terra!
É preciso pensar o céu, para que a terra se torne,
de novo, o paraíso! Volta do sonho bíblico tão caro
à mentalidade semita. Busca da Terra sem males (Yvy
marã ei), tão querida dos povos indígenas (Guarani
Apapocuva). Sociedade sem Classes, apregoada pelos
marxistas, e ainda por construir! Reino de Deus antecipado
na terra, tema central dos cristãos e cristãs! As
marcas da espiritualidade que deve sustentar o projeto
de uma sociedade diferente e de um novo modelo eclesial
são várias e importantes: espiritualidade encarnada
na vida real, espiritualidade martirial, espiritualidade
de busca-procura, espiritualidade utópico-poética,
espiritualidade da gratuidade, espiritualidade contemplativa
e, sobretudo em tempos de neoliberalismo, espiritualidade
da esperança, para podermos vencer os ídolos da morte
e indicar que o futuro da história já está assegurado
na vitória do Ressuscitado sobre a morte e que a história
tem um horizonte que não poderá ser retido por nenhuma
força ou ídolo da morte! Esperar a novidade de Deus
na história, por acreditar que esta vida é a mediação
de nosso encontro com Deus. Amar a vida, amar o corpo,
amar o mundo, amar a natureza e acreditar que a vida
vence a morte, porque Deus é o Senhor da vida!
Certamente para viverem a mística e a espiritualidade libertadoras
e terem espaço e credibilidade na sociedade, os cristãos/ãs
e as Igrejas devem se posicionar frente ao sistema
neoliberal excludente. Neste sentido, devem lutar
contra toda exclusão (pois isto é ético, tem raízes
bíblicas, é evangélico); estar ao lado da luta dos
excluídos; colaborar no resgate da dignidade e da
cidadania dos excluídos. Este enfrentamento exige
assumir uma luta ideológica frente aos valores apresentados
pelo sistema neoliberal: lucratividade, competitividade
e rentabilidade e contrapor a eles os valores com
enraizamento bíblico: gratuidade, solidariedade e
partilha.
Neste sentido, a mística e a espiritualidade dos que assumem a
luta do povo excluído, exigem a recriação da utopia
de uma sociedade onde caibam todos e todas e da qual
ninguém seja excluído(a). Como nos diz D.Pedro Casaldáliga,
frente ao processo de exclusão, temos que afirmar
o paradigma irrenunciável do êxodo: « Nem a esquerda
nem a fé cristã podem renunciar ao paradigma ou aos
paradigmas maiores. A justiça, a solidariedade, a
partilha, a sobriedade, os direitos humanos, a igualdade
e a alteridade simultaneamente das pessoas e dos povos,
a libertação integral, o Reino de Deus - o paradigma
do próprio Jesus - ... são o paradigma irrenunciável
».
Somos convidados, no engajamento com os pobres e excluídos,
a recuperar as raízes espirituais e místicas do cristianismo,
retomando o projeto libertador de Jesus Cristo e a
Utopia do Reino (cf.Mc.1,14-15;Lc.4,16-30;Mt.11,2-6).
Acreditar na força do Reino de Deus contra todas as
forças da morte e ter confiança na construção da sociedade
onde todos possam se sentir irmãos e irmãs na partilha
dos bens (cf.At.2,42-47;4,32-35) e na convivência
fraterna, onde Deus é o Deus de todos (cf.Apoc.21,1-7;
Is.65,17-25). Então poderemos cantar com entusiasmo:
"Ó Senhor, bendito sejas, Olorum, Tupã, Deus Mãe!
Deus-conosco para sempre, Deus-conosco para sempre!"
Esta ação política dos cristãos e cristãs deve se pautar pela opção
pelos pobres, pois o essencial é salvar a pessoa humana,
especialmente a pessoa humana que está sendo excluída,
pois Deus clama por meio dos excluídos: "Descobrir
nos rostos sofredores dos pobres o rosto do Senhor
(Mt,25,31-46) é algo que desafia todos os cristãos
a uma profunda conversão pessoal e eclesial" . A opção
pelos pobres é, em última instância, uma opção teológica.
É isso que nos afirma G.Gutiérrez: "O motivo último
do compromisso com os pobres e oprimidos não está
na análise social que utilizamos, em nossa compaixão
ou na experiência direta que possamos ter com a pobreza.
Todas essas razões são válidas e desempenham um papel
importante no nosso compromisso, porém, como cristãos,
este se embasa fundamentalmente no Deus de nossa fé.
É uma opção teocêntrica e profética que lança suas
raízes na gratuidade do amor de Deus e é exigida por
ela" . O pobre e o excluído são preferidos não ser
serem moral ou religiosamente melhores, mas por causa
do desumano de sua situação! A opção política dos
cristãos deve decorrer dessa opção teológica. Os cristãos/ãs
são chamados a transformar esta realidade injusta
e, alicerçados na gratuidade de Deus, fazer com que
esta opção teológica se torne radicalmente política,
ao preservar o humano que está sendo destruído na
pessoa dos pobres e excluídos, como também na natureza
ameaçada.
7. Questões sobre a eclesialidade das CEBs
7.1. Eclesialidade e poder.
Notamos três eixos a serem pensados:
a) Eixo ideológico: As CEBs são uma forma moderna de organização
frente a uma modernidade burguesa e uma modernidade
socialista, como horizonte utópico. Hoje estamos
frente à pós-modernidade, com um eixo de emoção.
Como levar adiante a alegria de viver, a subjetividade
sem perder a criticidade?
b) Eixo do imaginário católico: Este continua condicionando.
Como repensá-lo diante de novas relações de:
Gênero: homem e mulher.
Étnica: culturas e etnias.
Classe: fenômeno da exclusão.
c) Eixo da cidadania
eclesial: Conforme o Vaticano II, todo cristão/ã
se torna sujeito na Igreja, povo de Deus. A comunhão
eclesial se realiza na medida em que as pessoas
se tornam sujeitos.
7.2. Serviços, missão e mística.
- Em relação à formação de leigos/as, seminaristas, teólogos,
padres: é preciso mudar o conteúdo e a metodologia
deve ser adequada e comprometida com as bases: deve
estar ligada à prática e com linguagem popular.
- Ligação da teologia com a base: A produção cientifica
tem seu valor, mas precisa ser traduzida para a
base.
- A renovação está difícil: Os novos padres estão
em uma outra linha e há dificuldades para se renovar
os quadros no meio popular.
- Os membros das CEBs bebem do catolicismo popular,
mas hoje há uma outra exigência: Como seduzir os
jovens com uma nova espiritualidade?
- Dificuldade entre o “ganhar o pão” e o compromisso
de vida com as lutas.
- Serviços de solidariedade com: o mutirão nacional
contra a miséria e a fome; pela terra; pela moradia;
pela saúde; pelo emprego.
- As CEBs é que fazem as propostas da CNBB avançar
e, no entanto, não há tanto apoio para elas.
- Valor do martírio presente nas bases.
- Como superar a violência, o crime, o narcotráfico
que estão chamando os jovens? ( Com a Bíblia na
mão e do outro lado o fuzil!).
- Tudo na CEB é colegial: Há uma democracia desde
a base. Mas o modelo da Igreja Grande Instituição
é outro. Não serio o caso de se produzir um diretório
das CEBs legitimado pela CNBB? (Isto para dar estabilidade
à vivência das CEBs).
- Repensar a formação dos novos padres: Formar para
quê? Formar para o serviço do povo.
- repensar e apreender com a natureza (simplicidade
e organização da Natureza e das CEBs).
7.3. Identidade, diluição e nova afirmação.
- Há vários modelos em choque: CEBs diluídas na Grande Igreja;
CEBS em choque com outro modelo de Igreja; há lugares
em que não se fala de CEBs , como aconteceu com
o documento do Sínodo dos bispos – Ecclesia in América).
- Valor da articulação em rede – coordenação colegiada.
- Os jovens são chamados pelo provisório: Como encontrar
uma pedagogia que dê continuidade?
- Autonomia das CEBs, inclusive do ponto de vista
financeiro.
- Visibilidade das CEBs: mostrar a cara com elementos
materiais e formais.
- As CEBs devem ir para a mídia: há experiências
em várias dioceses.
- Importância das CEBs: são elas que levam adiante
as propostas da CNBB. São boas para o serviço!
- Legitimidade das CEBs: Existem e devem ser legitimadas
e propagadas para entrar no imaginário.
- Ocupar espaço na CNBB.
- Questão da institucionalidade das CEBs: Que tipo
de institucionalidade? São apresentados três modelos:
a) Organização livre (J. Comblin); b) Institucionalização
a serviço das CEBs; c) Institucionalização a serviço
dos bispos.
7.4 Síntese geral
7.3.1. Identidade e visibilidade das CEBs: Não só identidade
teológica, mas também pastoral: voltar às fontes;
memória; recuperar o Vaticano II.
7.3.2. Formação: Com um novo jeito; formar-se com
os outros; laicato forte e protagônico (retomar
os Documentos que falam sobre este protagonismo
dos leigos e leigas na Igreja); novos ministérios
e renovar os antigos na ótica da Igreja-serviçp.
7.3.3. Mística e espiritualidade das CEBs: Paixão
como fonte de ação; voltar às fontes; leitura orante
da Bíblia; o Espírito é a fonte da mística; perseverança
e resistência; a onda Lula abre espaço para o relançamento
das CEBs e sua mística.
7.3.4. Missionariedade: Partir para a missão; ampliar
a rede das CEBs; CEBs itinerantes no meio dos pobres,
no Fome Zero, no apoio aos projetos populares, junto
aos assentamentos, aos sem teto, sem terra; presença
na mídia, com competência e mostrando a cara na
rua.
7.3.5. Jovens: Novo acesso aos jovens; seduzir os
jovens, com emoção e mostrando o sentido da vida;
respeitar a diversidade dos jovens; dar espaço de
representação; dar espaço para as tarefas feitas
pelos jovens.
7.3.6. Reforço da organização em rede: organização
a nível nacional, com uma estrutura mínima de referência,
com uma institucionalidade mínima; com uma pagina
na internet.
7.3.7. CEBs e Eucaristia: uma comunidade cristã
não sobrevive sem a celebração eucarística; nova
forma de celebrar com novos ministérios; hospitalidade
eucarística e inter-comunhão; Eucaristia e CEBs:
necessidade pastoral dos fieis (exigência apontada
pelo Vaticano II) – Quais as formas concretas de
encontrar caminhos para a celebração ordinária da
eucaristia? A Eucaristia é a fonte da comunidade:
O que os bispos da América Latina estão fazendo
para resolver a questão da participação na eucaristia?
Formação litúrgica: necessidade pastoral e a celebração
dos sacramentos. Não seria possível outras formas
de celebração: unção dos enfermos, penitência, com
outras formas de ministérios?
8. Alguns pontos de fundo para dar horizontes à caminhada
das CEBs
8.1. Nova estrutura para um novo modo de ser Igreja: É preciso
pensar historicamente, pois a questão da Igreja
é uma questão de séculos. Somos um bilhão e 200
milhões de católicos. O desafio é gigantesco. As
CEBs são uma pequena parcela , mas marcaram a Igreja
a partir da América Latina e dos pobres, com sua
centralidade. Este processo é irreversível (cf.
LG. Capítulo II; EM., 58). Podemos repensar as diferentes
reformas no interior das Igrejas: Reforma de Gregório
VII; Lutero; Vaticano II. Para uma nova estrutura
é preciso ter critérios bíblicos e teológicos (Bíblia,
Tradição, Estrutura sacramental, estrutura pastoral-hierárquica
(com possível mudança nas formas) – Esses são os
elementos essenciais da natureza da Igreja e há
os elementos conjunturais que podem mudar: forma
de nomeação; celibato, formas de ministérios, etc...
O vinho novo que é Cristo, poder ser bebido em canecas
velhas, mas deve ser adequado às novas estruturas.
Yves Congar, ao falar sobre a verdadeira e falsa
reforma da Igreja (1968), aponta quatro critérios
para uma verdadeira Reforma da Igreja:PASTORES
(Aprovação por parte dos pastores)FUNDAMENTAÇÃO POVO
NA BÍBLIA (Ter uma base popular)
(Sonho de Jesus)RITMO HISTÓRICO
(Condições históricas -momento propício)
8.2. Minoridade das CEBS dentro da Grande Igreja Instituição:
As CEBs são minorias abraâmicas. São comunidades
pequenas e proféticas. Ainda estamos na afirmação
errada do “o modo novo de toda Igreja ser”. Isto
é impossível do ponto de vista sociológico e não
desejável do ponto de vista teológico, pois o
pluralismo é saudável e o universalizável é o
modo, a forma de ser, de partilhar, a comunitariedade.
Por isso, temos que qualificar o trabalho das
CEBs. Pela minoridade, as CEBS devem aceitar os
outros, através de um novo paradigma da dialogação
(dialogar com todo mundo). Devemos ser pericoréticos,
a exemplo da Trindade.
8.3. Reconhecimento jurídico das CEBs: Para desativar
o potencial autoritário do direito canônico; com
a lei se garante a continuidade da experiência
eclesial das CEBs.
8.4. Espiritualidade: É preciso enfocar melhor,
pois há um certo espírito funcional, utilitarista;
a espiritualidade deve estar ligada ao amor, à
gratuidade, ao mistério, à contemplação. A espiritualidade
deve se articular com o sentido da vida: deve
levar à justiça, mas também à alegria de viver,
superar a pobreza material, mas também a pobreza
espiritual, que pode levar ao nihilismo (Camus
e Kafka). É preciso mudar o mundo, reencantar
o mundo. Ter pão e belo!
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