A história das CEBs: Elementos de reflexão

1. Um pouco de história das CEBs no Brasil.

1.1. Gênese das CEBs.

a) Gestação.
Houve a preparação do terreno para o aparecimento das CEBs por parte da ACO (Ação Católica Operária), com o MEB (Movimento de Educação de Base), com o Movimento do Mundo Melhor, com os Planos de Pastoral da CNBB.
b) Nascimento.
Podemos localizar o nascimento das CEBs no final da década de 50 e início da década de 60. Eles pipocaram um pouco por todo o Brasil, no campo e na cidade.
c) Batismo.
O batismo das CEBs se deu com Medellín (1968). Inicialmente eram chamadas de Comunidades Cristãs de Base: “Assim, a comunidade cristã de base é o primeiro e fundamental núcleo eclesial, que deve, em seu próprio nível, responsabilizar-se pela riqueza e expansão da fé, como também pelo culto que é sua expressão. É ela , portanto, célula inicial de estruturação eclesial e foco de evangelização e atualmente fator primordial de promoção humana e desenvolvimento” .

d) Confirmação.
A confirmação se deu em Puebla (1979), mas antes as CEBs já haviam encontrado sua legitimidade na palavra do magistério universal na Evangelii Nuntiandi, 58:”...São solidárias com a vida da mesma Igreja e alimentadas pela sua doutrina e conservam-se unidas aos seus pastores”. O Documento de Puebla assim se expressa: “As comunidades eclesiais de base que em 1968 eram apenas uma experiência incipiente amadureceram e multiplicaram-se sobretudo em alguns países. Em comunhão com seus bispos e como o pedia Medellín, converteram-se em centros de evangelização e em motores de libertação e de desenvolvimento” .

e) Maturidade.
A maturidade das CEBs pode ser compreendida em três momentos:
- O primeiro se dá com o Documento da CNBB (1982): “Fenômeno estritamente eclesial, as CEBs em nosso país nasceram no seio da Igreja-instituição e tornaram-se “um novo modo de ser Igreja”. Pode-se afirmar que é ao redor delas que se desenvolve, e se desenvolverá cada vez mais, no futuro, a ação pastoral e evangelizadora da Igreja” .
- O segundo momento acontece com o VI Encontro Intereclesial das CEBs, em Trindade-Go (1986), onde se cunhou a expressão – CEBs: Um modo novo de toda a Igreja ser. Visa-se com tal expressão mostrar que o espírito das CEBs deveria fermentar toda a instituição eclesial a partir da opção pelos pobres.
- O terceiro momento pode ser compreendido a partir da feliz expressão de D.Pedro Casaldáliga – CEBs: O modo normal de toda a Igreja ser. Esta expressão quer significar que as questões fundamentais defendidas pelas CEBs devem ser assimiladas por toda a Igreja-instituição, pois fazem parte da defesa da vida. Por detrás desta vivência está presente a intuição do Vaticano II, sobretudo da Gaudium et Spes (nos.1.11)

1.2. Encontros Intereclesiais das CEBs no Brasil e fundamentos teológicos.

Os Encontros Intereclesiais de CEBs mostram a caminhada das CEBs e seus temas mostram como elas se inserem na realidade da vida do povo. Revelam também a aquisição feita pelas Cebs, nestas últimas décadas.

1.2.1. Os temas dos encontros.
I - 1975 – Vitória-ES - Uma Igreja que nasce do Povo pelo Espírito de Deus.
II - 1976 – Vitória-ES - Igreja, Povo que caminha.
III - 1978 – João Pessoa-PB - Igreja, Povo que se liberta.
IV - 1981 –Itaici-Indaiatuba-SP - Igreja, Povo oprimido que se organiza para a libertação.
V - 1983 – Canindé-CE - Igreja, Povo unido, semente de uma nova sociedade.
VI - 1986 – Trindade-GO - Cebs, Povo de Deus em busca da Terra Prometida
VII - 1989 – Duque de Caxias-RJ - Cebs, Povo de Deus na América Latina a caminho da libertação.
VIII - 1992 - Santa Maria RS - Cebs, Povo de Deus renascendo das culturas oprimidas.
IX - 1997 - São Luís-MA - Cebs, Vida e Esperança nas massas.
X - 2000 - Ilhéus-BA – Cebs, Povo de Deus, 2000 anos de caminhada.

XI – 2005 – Ipatinga-MG – Cebs, espiritualidade libertadora: Seguir Jesus
no compromisso com os excluídos (em preparação).

1.2.2. Elementos teológicos do Povo de Deus.

. Consciência de ser Povo e Povo de Deus.

A consciência de ser povo e de formar uma comunidade parece estar na base da vivência das Cebs, bem na perspectiva do Vaticano II: "Aprouve a Deus santificar e salvar os seres humanos não singularmente, sem nenhuma conexão uns com os outros, mas constituí-los num povo, que o conhecesse na verdade e santamente o servisse" (L.G.,9,24; cf. 9,26). A dimensão da fé comunitária e a salvação na perspectiva coletiva estão presentes na caminhada das Cebs. Os nomes e os escritos do Novo Testamento são comunitários. "A comunidade eclesial é a matriz da fé do cristão/ã" .

. Consciência de ter uma história.

Povo que caminha sabe que conta com a história. Tem uma raiz. Articula-se com uma tradição (Bíblia: leitura orante e comprometida): No êxodo, constitui-se como povo, que tem consciência de sua origem nos Patriarcas, em Adão e Eva e encontra-se em Deus como origem da vida e do mundo. Vê em Jesus a dinâmica de toda a história e o relançador do Projeto de Deus no Projeto do Reino, com carinho especial - opção pelos pobres (Lc.4,14-30; Mt.11,2-6. 25-26; Lc.7,18-23). Em Medellín, essa opção pelos pobres assume toda sua dimensão teológica (A opção pelos pobres é uma opção teocêntrica). Hoje essa opção pelos pobres parece sofrer, por parte da Igreja-instituição um certo ocultamento, como acontece no Documento Ecclesia in America, onde a questão dos pobres fica ofuscada por outras prioridades.

. Consciência de ser Povo Portador de uma Mensagem de libertação-salvação.

A mensagem fundamental é o Evangelho de Jesus, o carpinteiro da Galiléia. Por isso, a missão fundamental do Povo de Deus é a de Evangelizar. A missão da Igreja é Evangelizar. Por isso ela se torna sacramento ou sinal e instrumento da união dos seres humanos com Deus. Hoje, por vários motivos, sobretudo por causa de suas opções não tão evangélicas, parece que estamos vivendo um inverno na Igreja! Entretanto, por ter consciência de ser a portadora desse Evangelho, o Povo de Deus (Igreja) compreende-se como povo messiânico (LG.,9) e missionário (L.G.9,26). A mensagem da salvação-libertação deve atingir todas as dimensões da vida humana: econômica, política, cultural, pedagógica, erótica-sexual, litúrgica e também ecológica (libertação da natureza - cf. Rm.8,18-25). A Igreja, Povo de Deus, tem em primeiro lugar uma referência a Jesus e seu Evangelho; em segundo lugar, à comunidade dos santos - comunidade santificante e, finalmente, como comunidade institucional visível . Ela é Igreja de Deus e Povo de Deus.

. Consciência de ser um corpo organizado: organicidade e diversidade do Povo de Deus.

As Cebs descobrem o valor da comunhão nas diferenças e vão concretizando através da ministerialidade do Povo de Deus o sacerdócio comum dos fiéis (LG., 10). Há novas práticas que apontam para um novo horizonte de compreensão da participação dos fiéis na Igreja. A Igreja é Povo de Deus que busca uma convivência que se expressa também nos serviços, nos movimentos, nas estruturas de articulação e no catolicismo popular .

. Consciência do serviço-solidariedade universal (humana e cósmica).

A descoberta da solidariedade, da compaixão, da misericórdia faz parte integrante da caminhada das Cebs. A afirmação de ser semente de uma nova sociedade (1986) quer indicar o "papel protagônico no Projeto-processo mais amplo de uma Igreja dos Pobres" e que contribui para a construção de novas relações sociais entre as pessoas e os diferentes grupos humanos, para a construção de uma sociedade mais equilibrada, fraterna e solidária, onde acontecem as antecipações do Reino. O importante é o espírito, a referência inspiracional e não uma forma ou uma estrutura específica. Há "um tecido novo com práticas novas" .Um novo modo de ser.

A experiência das Cebs reencontra a prática de Jesus e seu sonho: reconstruir uma Igreja da misericórdia, que faz descer da cruz os povos crucificados e que se torna co-responsável na construção de uma solidariedade universal sobretudo com os pobres e excluídos .

Redescobre-se, na prática das Cebs, a dimensão profética: luta pela justiça e entrega da vida pelas vidas na doação de nossos mártires que reeditam o martírio de Jesus. Também essa dimensão tem sido ocultada nos últimos pronunciamentos oficiais. Faz parte do inverno da Igreja. No entanto, as Cebs retomam a memória perigosa e continuam celebrando a vida dos mártires: ladainhas, caminhadas, romarias...
As Cebs estão também se despertando para o grande sonho-desejo expresso por Jesus: "Que todos sejam um"! A dimensão ecumênica que despontou no encontro de Duque de Caxias (1989), vem dando seus frutos. A abertura ecumênica e macro-ecumênica tem sido, na América Latina, fruto nascido do serviço comum à missão libertadora (ecumenismo e diálogo religioso práxicos). Essa dimensão abre o caminho para o reconhecimento da alteridade e a beleza das diferenças (negros, índios, migrantes, mulheres, jovens, crianças), exigindo nova reflexão sobre as questões étnicas, de gênero e de geração, sem desprezar a questão básica das relações de classe. Estamos num novo momento de aprendizagem, onde a nova hospitalidade exige hospedar os outros dentro de nós . O respeito pela alteridade aponta para o desafio da inculturação libertadora e a construção de um projeto de Igreja ecumênico, aberto às diferenças e ao diálogo num mundo plural e que tenha os pobres como seu referencial básico.

2. Questões sobre a Eclesialidade das CEBs.

As CEBs nascem no Brasil e em toda a América Latina e Caribe impulsionadas pelo espírito do Vaticano II. Em Medellín (1968), elas são reconhecidas como “primeiro e fundamental núcleo eclesial, que deve, em seu próprio nível, responsabilizar-se pela riqueza e expansão da fé, como também pelo culto que é sua expressão. É ela, portanto, célula inicial de estruturação eclesial e foco de evangelização e atualmente fator primordial de promoção humana e desenvolvimento” (Medellín, 15. Pastoral de Conjunto, no.10).

As CEBs são Igreja a partir da base. Buscam responder as questões vindas do cotidiano. São Igreja em nosso tempo. Por isso, muitas vezes, foram e são incompreendidas, como o próprio Jesus e as primeiras comunidades cristãs em seu tempo. Isto aconteceu e acontece com as CEBs do Brasil, quer do ponto de vista sócio-político, como também do ponto de vista eclesial. Queremos mostrar como acontecem essas tensões pelo fato das CEBs buscarem estar presentes em seu tempo.

2.1. Na década dos 70: As CEBs são eclesiais?Neste período, notamos uma dupla problemática, retratada no no. 58 da Evangelii Nuntiandi, texto fundamental para a compreensão das CEBs no interior da Igreja Universal: De um lado, fala-se de”comunidades de base com um espírito de crítica acerba em relação à Igreja, que elas estigmatizam muito facilmente como “institucional” e à qual elas se contrapõem como comunidades carismáticas, libertas de estruturas e inspiradas somente no Evangelho”. Essas comunidades de contestação são um fenômeno especificamente europeu, que se colocavam à margem da grande Igreja-Instituição, buscando autonomia e independência. Por outro lado, há comunidades “que brotam e desenvolvem-se (...) no interior da Igreja, e são solidárias com a vida da mesma Igreja e alimentadas pela sua doutrina e conservam-se unidas aos seus pastores”. Estas CEBs mostraram, de diferentes modos, estar ligadas à Igreja, mesmo quando não eram compreendidas ou aceitas pelos pastores locais. Com o passar do tempo, essas CEBs provaram ser profundamente eclesiais, tendo bispos e cardeais que as apóiam e apontam como presença viva de Jesus no meio do povo pobre e excluído.
2.2. Na década dos 80: Perigo da politização.
A problemática girava em torno das comunidades comprometidas com o social. Afirmava-se o perigo da politização, da manipulação, da radicalização ideológica (cf. Puebla, 98. 630). Havia um medo das CEBs se tornarem extensão dos partidos. Porém, no caminhar da história, constatou-se que as CEBs davam e continuam dando identidade de fé aos cristãos e cristãs que se comprometem com o processo de libertação. A caminhada histórica das CEBs demonstra que o engajamento político não é empecilho para sua eclesialidade.2.3. Década dos 90: Questão do diálogo ecumênico e inter-religioso.A grande questão, neste momento, se relaciona com a vivência ecumênica e o diálogo inter-religioso. Esta problemática esteve presente no 7o. Intereclesial em Duque de Caxias-RJ e, de modo ainda mais premente, no 8o. Intereclesial em Santa Maria. A questão era a relação eclesialidade e confessionalidade: como manter a identidade católica e ao mesmo tempo relacionar-se com as outras Igrejas e religiões? Aqui também o tempo deu razão às CEBs. Na Campanha da Fraternidade de 2000, tivemos, pela primeira vez, uma campanha ecumênica. O próprio João Paulo II convocou os lideres das religiões para rezarem em Assis. 2.4. Hoje – 2000-2005: Qual o lugar das CEBs na estrutura de Igreja?Hoje, não há problema de ruptura. Há preocupação com a autonomia. Não há mais preocupação com a manipulação política, pois mesmo havendo ligação com o PT, o MST, não há fusão ideológica. Não há mais preocupação com o reducionismo político, pois se constata uma catolicidade ecumênica. Todas essas questões, superadas no tempo pela fidelidade ao projeto de Jesus, mostram que as CEBs estão no seu tempo. Hoje elas apontam para um novo estatuto eclesial, para que fique bem nítido seu papel no interior da Igreja-Instituição. As CEBs continuam sendo comunidades conseqüentes com a prática histórica de Jesus. Elas são vitais para a Igreja Universal.


3. CEBs: Elementos fundamentais.

Para se compreender o que é uma CEB, é preciso analisar seus elementos fundamentais. Por isso, vamos analisar o seguinte esquema que nos oferece uma perspectiva de compreensão:

JESUS CRISTO
São evangélicas


PASTORES CEBs IGREJA
Ligação canônico- Eclesialidade UNIVERSAL
Pastoral Catolicidade
Ecumenicidade


MUNDO
SOCIEDADE
Compromisso social


3.1. Auto-definição de eclesiais.
São eclesiais, porque são comunidades. Igreja é essencialmente comunidade. Ajudam a eclesializar a Igreja (circularidade de vida, comunhão, fraternidade). Ainda mais, na América Latina, envolvem os pobres e reinventam a Igreja . Há uma centralidade dos pobres. Gustavo Gutiérrez fala em irrupção dos pobres na Igreja e na sociedade. 3.1.1. Ligação fé-vida: A grande novidade da(s) Igreja(s) na América Latina é a entrada de cristãos/ãs na luta política de libertação dos pobres/excluídos.a) Entrada nos movimentos populares de reivindicações.b) Entrada e participação nos movimentos específicos:- Luta pela Terra: ocupações com a participação ativa das CEBs.
- Luta das mulheres: Grupo de mulheres da periferia.
- Luta dos negros.
- Descoberta do ser gente
- Valor das culturas
- Relação de gênero.
- Defesa da natureza (ecologia).
c) Entrada no movimento sindical: a grande questão da luta ideológica e a primazia do trabalho sobre o capital.
- Descoberta da força do trabalhador.
- Valor da organização sindical e sua influência na política.d) Entrada nos partidos políticos com proposta popular.? Valor da participação política como exigência da cidadania.
- Importância do projeto de sociedade (plantar alface, couve ou plantar castanheira e pinheiro araucária?).e) As Pastorais sociais (Saúde, Criança, Mulher Marginalizada, Operária, Negros, Menor) como fruto do engajamento dos cristãos/ãs concretizando a opção da Igreja pelos pobres: caminho de cidadania.- As pastorais sociais levam para dentro da Igreja a importância do engajamento.
- Procuram traduzir a importância de uma Igreja comprometida com as lutas sociais.
- Iniciam o processo de ser cidadão/ã a partir das comunidades.3.1.2. Novidades a partir da experiência das CEBs: A Mística e a Espiritualidade da Libertação.Com a entrada dos cristãos e cristãs na luta política de libertação dos pobres e excluídos na América Latina e Caribe, o Espírito suscitou uma nova experiência eclesial, definida pela ligação fé-vida e que gerou:a) Um novo modo de viver a fé: A Igreja assume os novos desafios do mundo de hoje. Os cristãos e cristãs, movidos pelo Espírito do Ressuscitado (a cristologia é vista como o seguimento de Jesus no Espírito, mostrando, portanto a ligação da missão do Filho e a missão do Espírito), abrem-se para os problemas do mundo: ”As alegrias e as esperanças, as tristezas e angústias dos homens e mulheres de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e angústias dos discípulos de Cristo. Não se encontra nada verdadeiramente humano que não lhes ressoe no coração”(GS,1).b) Um novo modo de transmitir a fé: Uma nova leitura da Bíblia a partir do pobre-excluído (classe), a partir da mulher (gênero), a partir das diferentes culturas (etnia) e a partir dos idosos, jovens, crianças (geração). Encontramos também no interior de todo esse processo uma nova forma de fazer teologia e uma nova catequese, fazendo a ligação fé-vida e muito mais martirial.c) Um novo modo de celebrar a fé: A partir da ligação fé-vida, a liturgia expressa-se a partir das diferentes culturas (inculturação) e celebra as lutas em defesa da vida, com grande respeito pela alteridade do outro. Mas mesmo com todas estas experiências e lutas, a pergunta que sempre volta é: “O que é uma CEB”? O que é preciso para se ter uma CEB? E é sempre difícil explicar! É tão difícil como responder às perguntas: O que é o amor? A liberdade? A vida? Estamos praticamente na mesma relação! Mas sempre é importante se dar uma certa definição. Há, na verdade, algumas convergências, alguns elementos constitutivos de uma CEB.1o. Elementos materiais (corpo).1) Grupo de fiéis batizados (suficientemente desenvolvido) e que celebra (celebração ou culto regular, semanalmente, quinzenalmente) com ou sem eucaristia.2) Integrado por gente das classes populares (pobres), tendo pessoas de outras classes, mas não majoritariamente. A CEB tem sua identidade histórica nos pobres em sentido sociológico e, desta forma, o sentido de “base” veicula as seguintes características em sua constituição: pobre, popular (rosto do povo), celular, leiga, de luta, cristológica.3) Em torno da Palavra de Deus (Bíblia): A palavra faz parte constituinte de uma comunidade de base. A Bíblia é a companheira da CEB.2o. Elementos formais (alma).1) Partilha da palavra em confronto com a vida.2) Participação nos serviços (ministérios): coordenação, liturgia, catequese, canto. As CEBs são participantes.3) Compromisso no social: A palavra de Deus induz à ação. Podemos lembrar aqui a grande novidade da Igreja na América Latina: A entrada (inserção) de cristãos e cristãs na luta política de libertação dos pobres e excluídos (Ligação Fé-Vida). Podemos nos perguntar: Como vai nossa fé? Como vai nosso compromisso? Como vão nossas lutas?3.2. Relação fundante das CEBs – Identidade originária: Jesus Cristo (Puebla, 641).- É a ligação com Jesus Cristo a ligação constitutiva: Por causa da palavra de Jesus Cristo. Por causa do Espírito de Jesus Cristo. Por causa do seguimento de Jesus Cristo. Jesus é o fundamento estrutural das CEBs. Isto significa que a cristologia vem antes da eclesiologia. A realidade fundacional das CEBs é Jesus Cristo. São Paulo fala que não há outro fundamento! Isto está presente já no 1o. Intereclesial: Igreja que nasce do Povo pelo Espírito de Deus. Por isso, são evangélicas. São realidade mistérica. As Cebs são uma experiência cristã integral (Pe. Henrique de Lima Vaz). D. Pedro Casaldáliga fala do modo normal de ser Igreja. (Cf. GS,1.11).
- De acordo com o Vaticano II, uma Igreja para ser Igreja deve ter três elementos: Fé, sacramentos e comunhão.
- Qual a característica específica das CEBs na América Latina? Primeiramente é ter seu fundamento em Jesus Cristo. Segundo aprofundar a presença do Espírito (valor e risco do movimento carismático: perigo do pneumatomonismo), para suspender o cristomonismo e buscar o aprofundamento da Trindade (já presente no 6o. Intereclesial – Trindade - 1986): A Trindade é a melhor comunidade! Houve a apresentação da proposta do modelo da Trindade para a Igreja e para a sociedade.3.3. Compromisso social.- Luta pela libertação em todos as dimensões: econômica, política, cultural, erótico-sexual, pedagógica, litúrgica, ecológica.
- Luta pela justiça.
- Defesa da vida das pessoas e da natureza. Luta sempre a partir da fé, visando a libertação. Há sempre o perigo de funcionalizar (instrumentalizar) a fé em função da luta social. A própria leitura da bíblia pode correr este risco, na medida em que se faz uma leitura para fundamentar a luta social. É um risco que deve ser evitado.3.4. Relação com os pastores.- É a micro-Igreja na macro-Igreja. A Ecclesiola na Ecclesia. As CEBs estão na Igreja Católica mas com abertura para a ecumenicidade (LG,13); Igreja como Povo católico.
- As CEBs em relação com as outras CEBs:
- Com as paróquias, para transformá-las em redes de comunidades, com formas alternativas de organização (em forma de rede – paróquias sem matriz).
- Abertura para outros movimentos de Igreja (como os carismáticos, buscando criar formas de comunhão!).
- As CEBs são a Igreja em movimento.
- Nesta relação com a grande Instituição, sua inserção institucional pode trazer vantagens: apoio, assessoria e estrutura.
- O papa fala de três exigências por parte dos pastores em relação às CEBs: manter a autonomia, a eficácia, e a sobrevivência. Entretanto, notamos limites na atual situação: As CEBs são dependentes do padre para a eucaristia; dependente do pastor, pois não têm estatuto canônico (é figura teológica, mas não é figura jurídica!).
- Exigências das CEBs para com os pastores: união com os pastores (mas se deve perceber o risco, pois o poder é monocrático): Quando o bispo quer tudo corre bem! Quando o bispo não quer fica mais difícil.
3.5. Ligação com a Igreja UniversalAs CEBs não devem se preocupar em ser o modo novo de toda a Igreja ser, pois isto parece ser impossível do ponto de vista sociológico e não desejável do ponto de vista teológico, pois o pluralismo é saudável! Neste sentido, as CEBs “devem fortalecer sua catolicidade prática, jamais considerando-se ‘como o destinatário único ou como o único agente de evangelização’, mas sempre abertas à universalidade que requer qualquer tarefa de anúncio do Evangelho” .


4. Perspectivas pastorais a partir das Cebs para um novo modelo eclesial e sua contribuição para a construção de uma nova sociedade.

4.1. Eclesiologia: Modelos em conflito.IGREJA
SOCIEDADE PERFEITA

EM OPOSIÇÃO AO
MUNDO LUGAR DO PECADO

Antes do Vaticano II, este era o modelo reinante e que determinava a forma da Igreja atuar em relação à sociedade. Sentia-se como aquela que tem a verdade acima de todos e, portanto, acha-se no direito de ditar as regras para todas as dimensões da sociedade.

4.2. Modelo Jurídico-patriarcal X modelo comunidade ministerial igualitária.Mesmo após o Vaticano II, notamos a persistência deste modelo, embora com algumas modificações. O quadro abaixo procura dar uma visão do que mudou e do que ainda persiste.MODELO JURÍDICO-PATRIARCAL MODELO DE COMUNHÃO
MODELO INSTITUCIONAL-HIERÁRQUICO COMUNIDADE MINISTERIAL IGUALITÁRIA
IGREJA SOCIEDADE PERFEITA IGREJA-COMUNHÃO – REALIDADE SALVÍFICA TRANSCENDENTE – MISTÉRIO – SACRAMENTO
CRISTANDADE: FORA DA IGREJA NÃO HÁ SALVAÇÃO SOCIEDADE PLURAL: SALVAÇÃO VEM DE DEUS – NOVO ECUMENISMO
PATRIARCALIZAÇÃO DA IGREJA: LEGITIMADA PELA ONTOLOGIZAÇÃO DO SEXO BIOLÓGICO DE JESUS QUE ADQUIRIU UM SIGNIFICADO TEOLÓGICO NOVO PARADIGMA ECLESIAL:
PRESENÇA CADA VEZ MAIS SIGNIFICATIVA DA MULHER NA ESFERA ECLESIAL E NOVAS DEMANDAS EM RELAÇÃO À SUA PARTICIPAÇÃO NA IGREJA
ECLESIOCENTRISMO TEOCENTRISMO – PNEUMATOCENTRISMO – REINOCENTRISMO COSMOCENTRISMO
IDENTIDADE DOUTRINAL IDENTIDADE PRÁXICA

4.3. CEBs e o novo paradigma eclesiológico
AS CEBs CONSTITUEM A ESTRUTURA BÁSICA E O FUNDAMENTO ATUAL DESSE NOVO PARADIGMA ECLESIOLÓGICO
ESSE PARADIGMA EMERGE DAS EXPERIÊNCIAS CONCRETAS DAS COMUNIDADES CRISTÃS POPULARES NAS QUAIS MULHERES E HOMENS VIVEM E INTERPRETAM A FÉ EM CHAVE EVANGÉLICA INCLUDENTE E TRANSFORMADORA
COMUNIDADE MINISTERIAL IGUALITÁRIA COM AS MARCAS DA
PARTICIPAÇÃO CRIATIVA
RECONHECIMENTO PLENO DAS ALTERIDADES (GÊNERO E ETNIAS)
RESPONSABILIDADE EQUIVALENTE

EXIGÊNCIA DA REFORMULAÇÃO TEOLÓGICA DOS MINISTÉRIOS
NOVO ECUMENISMO
MARTIROLÓGIO LATINO-AMERICANO

4.4. A missão do cristianismo é fundar comunidades: As CEBs possuem as marcas fundamentais da comunidade.4.4.1. A ligação fé-vida: partilhar a vida, lutar pela justiça, ser solidários/as com os irmãos e irmãs.
4.4.2. Opção pelos pobres como opção teocêntrica: Esta não pode faltar, pois é o centro do Evangelho de Jesus (cf. Mt. 9,35-36; Lc.4,14-30; Mt. 11,2-6. 25-26; Mt.25,31-46). A opção pelos pobres é uma opção teocêntrica! Mesmo convivendo com os conflitos, os pobres não podem sair do horizonte das Cebs (cf. Gal.2,1-14).
4.4.3. Leitura popular e orante da Bíblia: Sem Bíblia não pode haver comunidade de base. Daí a importância dos círculos bíblicos, grupos de quarteirão para aprofundar a Palavra de Deus e ligá-la com a realidade.4.4.4. Ser Igreja - Povo de Deus: Consciência de ser Povo de Deus. CEBs, Povo de Deus, 2000 anos de caminhada. Grande afirmação do Concílio Vaticano II. Igualdade fundamental (LG,32): Participação na dimensão profética, na dimensão sacerdotal, na dimensão real.4.4.5. Espiritualidade da Libertação: Há várias características da espiritualidade das CEBs:? Libertária, pois visa a mudança, a transformação da sociedade.
- Martirial: é solidária, cheia de compaixão.
- Dialogal: é ecumênica, coloca-se na linha do diálogo inter-religioso.
- Ecológica: Tem ternura pela vida; abre-se para o valor da natureza.
- Poética: traz sempre a utopia do Reino anunciado por Jesus: "Podem destruir uma árvore. Matar uma flor. Mas não impedirão a primavera".
4.4.6. Igreja toda ministerial: Carismas, serviços, ministérios . 4.4.7. Papel da mulher na(s) Igreja(s): A grande maioria é de mulheres na Igreja. Legitimidade de suas justas aspirações. Avanços na teologia feminista levando a sério a relação de gênero. Nova leitura da Bíblia a partir da ótica da mulher (pobre, negra, indígena).4.4.8. A presença dos jovens: Desafio frente ao mundo globalizado de forma neoliberal e exigência de uma religião de opção. Desafio da formação e aprofundamento da fé.

4.5. Diálogo ecumênico e inter-religioso: Condições para o diálogo ecumênico e inter-religioso.4.5.1. Humildade: A humildade se contrapõe ao sentimento de superioridade e auto-suficiência.? Somos peregrinos da verdade, companheiros/as de uma viagem fraterna.
- Ninguém pode ter a pretensão de ter assimilado plenamente a Verdade.
4.5.2. Reconhecimento do valor da alteridade.? “Hermenêutica da diferença” e não “lógica da - Reconhecimento da integridade da fé dos interlocutores ( empatia + simpatia).4.5.3. Fidelidade à própria tradição.Permanecer firme na convicção religiosa, mantendo a identidade cultural e religiosa.4.5.4. Abertura à verdade.? Estar aberto às novas dimensões do mistério divino.
- A verdade cristã contém três elementos (Claude Geffré):
a) Ordem do testemunho: incondicionalidade da fé como algo aceito e não provado.
b) Ordem da antecipação: Estar sempre aberto/a à novidade da história, pois a verdade cristã tem uma dimensão escatológica.
c) Verdade compartilhada: A verdade é relacional, pois tudo está relacionado entre si.
4.5.5. Compaixão ativa.? Ter entranhas de misericórdia ( Mt 9,36; Lc 10,33), remediando todas as formas de sofrimento ( saber cuidar).
- Compreender a universalidade do pobre a partir do sofrimento e sua universalidade, pois aí está o terreno comum para o encontro inter-religioso.

FORMAS DE DIÁLOGO

1. Cooperação religiosa em favor da paz: campo da ética e das ações conjuntas.
2. Intercâmbios teológicos: troca de experiências a partir dos patrimônios religiosos.
3. Diálogo da experiência religiosa: oração e contemplação na linha da experiência espiritual.

4.6. Ecologia: Importância da inter-relacionalidade – Tudo está interligado. Podemos relembrar o discurso do índio Pele-Vermelha Seattle (1854): "Ensinarão vocês às suas crianças o que ensinamos às nossas? Que a terra é nossa mãe? O que acontece à terra acontece a todos os filhos da terra. O que sabemos é isto: a terra não pertence ao homem, o homem pertence à terra. Todas as coisas estão ligadas, assim como o sangue nos une a todos. O homem não teceu a rede da vida, é apenas um dos fios dela. O que quer que ele faça à rede, fará a si mesmo. Uma coisa sabemos: nosso Deus é também o seu deus. A terra é preciosa para ele e magoá-la é acumular contrariedades sobre o seu criador... Assim como nós somos parte da terra, vocês são parte da terra. Esta terra é preciosa para nós, também é preciosa para vocês. Uma coisa sabemos: existe apenas um Deus. Nenhum homem, vermelho ou branco, pode viver à parte. Afinal, somos irmãos"

4.7. Direitos Humanos: Crescimento da consciência dos Direitos Humanos.

4.8. Pastoral Urbana: Pensar a cidade como um todo. Estamos diante de um grande desafio. Há pequenas experiências, mas temos muito caminhar!

4.9. Desafios para o Século XXI: Recorremos à palavra de D. Pedro Casaldáliga, o profeta da justiça e da esperança: “O Século XXI ou será místico ou não será humano. O Século XXI cristão optará pelos excluídos ou não será cristão. O Século XXI cristão ou será ecumênico ou não será eclesial. O Século XXI ou será ecológico ou simplesmente não será”. Esta afirmação de D. Pedro indica que devemos incorporar ao projeto de uma nova sociedade e, portanto, de um outro mundo possível, o místico, a opção pelos excluídos, o ecumenismo e o ecológico. São desafios que devemos enfrentar com muita ousadia, criatividade e esperança!


5. Exigências de uma nova mística e espiritualidade hoje.

A realidade em que vivemos é complexa e apresenta duas características bem marcantes no nosso cotidiano: uma sociedade contraditória e uma sociedade fragmentada. Contraditória, pois ao lado de pessoas que exibem os importados mais sofisticados, como carros, aparelhos eletrônicos, internet, encontramos pessoas que não têm sequer o que comer. Ao lado de gastos astronômicos em festas, comemorações, podemos encontrar escolas sem giz e hospitais e postos de saúde sem gaze, algodão e seringas para aplicar injeção em pacientes em perigo de vida. Fragmentada, quer ao nível sócio-econômico, com pessoas integradas no mundo do trabalho com ótima remuneração, ao lado de milhões de desempregados/as e subempregados/as, que não sabem como encontrar o alimento para seus filhos/as. Fragmentada ainda em nível cultural e religioso, pois numa mesma família, encontramos pessoas de diferentes crenças e pertencentes a diferentes Igrejas ou religiões.

Por isso, em momentos de crise a espiritualidade e a mística são de fundamental importância, pois elas podem dar sustentação às lutas. Nessa nova fase de desenvolvimento do capital em sua forma neoliberal, há necessidade de uma nova espiritualidade. Espiritualidade que se preocupa com os excluídos, gerados pelo neoliberalismo. Hoje embora ainda haja perseguição e morte, sobretudo no campo, já não há uma repressão direta e contínua por causa das lutas. O que se nota é um processo de cooptação e de destruição da pessoa através do ostracismo ou mesmo pelo processo do desemprego estrutural, que vai minando a força dos trabalhadores. A mística exigida hoje é outra: manter a identidade, quando tudo ao nosso redor se desfaz. Por isso podemos descobrir novas exigências para a mística e a espiritualidade que buscam sustentar um projeto de uma nova sociedade e de um novo modelo de Igreja. Queremos apontar algumas características dessa nova mística, sem a pretensão de esgotar todas as suas potencialidades.


5.1. Uma espiritualidade do corpo.

5.1.1. "Com os pés no chão".A espiritualidade e a mística presentes nas CEBs se caracterizam pela referência constante à realidade. Uma verdadeira paixão pela realidade. Fala-se em ser honesto com o real. Toda ação, toda abordagem, toda teoria, todo estudo, toda vivência, todo projeto deve partir da realidade e voltar à realidade. Ter os pés no chão significa também partir de baixo para cima. Ter visão indutiva. Respeitar a participação da base. Também partir de dentro para fora. O processo da conscientização que leva a pessoa a se decidir livremente e não de forma autoritária. Por isso é que somos marcados ainda pelo método ver-julgar-agir-celebrar-avaliar . Esta dimensão da mística nos tem levado a assumir com muita firmeza a luta política. Com a crise do socialismo histórico, enfrentamos também a crise da utopia. Hoje fala-se na busca de novos paradigmas para podermos compreender a realidade. O processo vivido pelo Fórum Social Mundial, iniciado em 2001, e hoje, em seu terceiro ano, tem mostrado que um outro mundo é possível, rompendo desta forma a afirmação neoliberal do fim da história.5.1.2. "Com o coração"O movimento carismático, tanto católico quanto protestante, mas sobretudo a influência do mundo oriental, estão chamando nossa atenção para o valor e importância da subjetividade. Como afirma L.Boff, "o processo de mundialização não se faz somente via economia, mercados articulados mundialmente, via ciência e técnica, mas também via subjetividade, mística, aprendizado uns dos outros, para descobrir a riqueza que carregamos sem saber, da qual nós, ocidentais, somos às vezes extremamente pobres. Uma vez, conversando com um mestre zen-budista de Sri Lanka, ele me disse:" O erro de vocês é que têm o centro em cima, na cabeça, por isso tudo está errado em vocês. Como fazer girar o corpo humano se o centro está ali? É uma cambalhota desorganizada. A Bíblia", acrescentou, "é um pouco melhor, porque ela empurra o centro para o coração. Nós, orientais, o temos na barriga, no umbigo. Nós sentimos, pensamos e organizamos o mundo a partir do centro umbilical, onde toda energia nos chega e toda energia sai, e, assim, entramos no equilíbrio cósmico. Vocês são desequilibrados e lançam seu desequilíbrio ao mundo inteiro" . Esta perspectiva tem muito a ver com a dinâmica bíblica e sobretudo com o Novo Testamento, onde se fala que o amor de Jesus é um amor que toca as entranhas (cf.Mt.9,35-36; Lc.15,20; 7,13; 10,33; Mt.14,14; 15,32; 18,27; 20,34; Mc.1,41; 6,34; 8,2; 9,22; cf.Is.49,14-16; Jer.31,31-34; Ez.36,26-28).5.1.3. "Com as mãos".Não há dúvida de que a espiritualidade das Cebs está ligada à luta de transformação social. Movidos pelo Deus da Vida, o Deus defensor dos pobres e excluídos, movidos pela prática de Jesus e seu seguimento, pela identificação com os pobres, pela utopia do Reino e também movidos pelo sofrimento do povo, pela indignação ética, pela solidariedade, pelo valor da pessoa, pela consciência de classe, pelo respeito à alteridade, pelo valor da terra e pelo respeito à ecologia, os membros das Cebs têm trabalhado muito para resistir à destruição da pessoa humana e da natureza. As lutas continuam em todas as dimensões, articuladas hoje com outros segmentos sociais que também lutam contra a voracidade do Capital mundializado. Está ficando cada vez mais nítido que esta luta é difícl. É a luta de Davi contra Golias. Mas temos que esperar apesar de tudo indicar o contrário. Estamos indo na contra-corrente. Por isso é que a exigência de espiritualidade tem que ser ainda mais profunda. Podemos evocar os textos de Paulo aos Rom.5,1-11 e 8,21-31.5.1.4. "Com os olhos e ouvidos".As exigências para a construção de um projeto de nova sociedade e de um novo modelo eclesial são cada vez mais profundas. Sem perder de vista o que já descobrimos, temos que buscar novos caminhos e acentuar novos aspectos que, ou estavam ofuscados ou não eram levados em consideração. Uma das novas dimensões é a étnico-cultural. A inculturação não mais como etapa prévia da evangelização, mas como dimensão que a acompanha permanentemente . Inculturação que deve levar a sério a alteridade. Buscar a comunhão das diferenças. Trabalhar com a perspectiva que as diferenças são valores para a compreensão da vida em comunhão. Neste sentido, a própria democracia tem se enriquecido com esta perspectiva. O diferente não vem para atrabalhar, mas para enriquecer o conjunto. Nossa espiritualidade sempre se norteou pela Trindade. Jesus sempre nos é apresentado como a porta de entrada para o conhecimento da Trindade. No VI Encontro Intereclesial das CEBs (Trindade,Go.-1986), ficou cunhada a expressão: A Trindade como a melhor comunidade! Hoje somos convidados a tornar esta expressão realidade. Pensar Deus presente no mundo inteiro, em toda a Oikoumene. Pensar no Deus da vida, no Deus do Cosmos, no Deus de todas as etnias, culturas. Temos que viver e pensar a vida a partir da dimensão ecumênica e do diálogo religioso. Pensar a vida, sabendo que ela não será viável se o desenvolvimento econômico, guiado pelo neoliberalismo, continuar a destruir pessoas, tidas como sobra, ou mesmo como lixo e a destruir a natureza, o habitat de toda a criação! Sem a dimensão ecológica, nossa espiritualidade ficará pela metade e não seremos capazes de sustentar a criação que Deus nos legou. É importante lembrar com S.Paulo, que também a natureza "geme em dores de parto esperando a libertação" (Rom.8,22-23). Podemos evocar D. Pedro Casaldáliga, profeta da justiça e da esperança, que nos alerta para as condições exigidas dos cristãos e cristãs no novo milênio : “O Século XXI ou será místico ou não será humano. O Século XXI cristão optará pelos excluídos ou não será cristão. O Século XXI cristão ou será ecumênico ou não será eclesial. O Século XXI ou será ecológico ou simplesmente não será”. Esta afirmação de D. Pedro indica que devemos incorporar ao projeto de uma nova sociedade e, portanto, de um mundo novo possível, o místico, a opção pelos excluídos, o ecumenismo e o ecológico. São desafios que devemos enfrentar com muita ousadia, criatividade e esperança.5.2. A espiritualidade das CEBs se forja dentro de um "novo tempo", com novos caminhos e novos aspectos.Sem perder o primeiro amor (cf. Ap. 2,4), temos que enfrentar uma nova conjuntura no processo de construção de uma nova sociedade e um novo modelo eclesial. Há mudanças claras que estão se operando e as Cebs também estão buscando se posicionar frente a elas. Eis algumas mudanças que estamos vivenciando : 5.2.1. Do político para o social e o civil.Não quer dizer que a dimensão política tenha desaparecido das Cebs, mas percebe-se que há diferentes formas de se fazer política e que podem estar ou não ligadas à política partidária : no plano social (solidariedade) ou no plano civil, através da luta de associações de vizinhos, jovens, mulheres, direitos humanos, defesa da ecologia, defesa da vida.5.2.2. Do êxodo ao exílio e do exílio ao êxodo.Estamos passando por um momento onde a mudança das estruturas está dando lugar à luta pela sobrevivência e à defesa da vida cotidiana em tempos de neoliberalismo. Não se consegue ver uma rápida mudança de estruturas ou a tomada do poder pelas esquerdas, mesmo com a realidade de se ganhar o governo de muitas cidades, alguns estados e, hoje, o governo do país. Luta-se ainda para sobreviver. Há luta, resistência. Estamos, ainda, no exílio: tempo de paciência, resistência, tempo de espera de dias melhores. Não significa renunciar ao paradigma do êxodo, mas saber ter paciência histórica em tempos de ídolos e sacrifícios. Ele parece estar de novo se avizinhando. O Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, em sua terceira edição, vaticinou a abertura de um novo tempo : um outro mundo é possível! Podemos retomar o sonho. No Brasil, a esperança venceu o medo! Há muita esperança na mente e nos corações do povo.5.2.3. Do profético-apocalíptico ao sapiencial.Enfrenta-se a vida no cotidiano. A profecia continua no horizonte, mas sem o mesmo fervor do momento revolucionário. Vive-se com o realismo do dia-a-dia, com sua pobreza, suas contradições, num desejo contínuo de superação. Tempo de oração confiante.5.2.4. De um certo complexo de elite eclesial à religiosidade popular.As Cebs se sentem povo com o povo. Talvez em alguns momentos, tenhamos tentado olhar de cima. Estamos sabendo reconhecer os valores das diversas tradições humanas, culturais, religiosas. Estamos percebendo que não somos os únicos e nem os melhores! Fazemos parte da luta do povo e estamos reconhecendo, que mesmo com contradições, a força da mudança está nele, mesmo quando escondida! 5.2.5. Da análise sócio-analítica à inclusão da mediação cultural.Estamos buscando outros olhos para enxergar a realidade. Sem deixar a análise sócio-econômica, estamos enriquecendo a leitura da realidade com elementos antropológicos e culturais. Estamos nos abrindo ao valor das diferenças. Reconhecendo a alteridade. O valor do corpo. A importância da festa, do lúdico, do simbólico para sustentar alimentar a esperança e antecipar a utopia. Seguindo a proposta da Agenda Latino-americana de 2002 – As culturas em dialogo – podemos compreender melhor esta nova exigência em nossa espiritualidade: «Todas as culturas. Todas por igual. Numa ciranda divinamente humana, entrelaçada pelo arco-íris da convivência e da paz. Não num choque de civilizações..., mas numa complementariedade fraterna. Um diálogo que escuta e fala, que acolhe e dá, que respeita e admira e se emociona como num encontro amoroso. Sem fundamentalismos. Sem etnocentrismos prepotentes. Sem hegemonias preconceituosas. Sem culturas dominantes e culturas oprimidas. Para que o mundo plural seja cada vez mais fundamentalmente humano. «Quanto melhor (se) respeitem as peculariedades das diversas culturas, tanto mais se promove e se expressa a unidade do gênero humano», ponderava já o Vaticano II, em seu documento, tão sensivelmente humanista, Gaudium et Spes (54)» .5.2.6. Do voluntarismo da práxis à experiência da gratuidade.Diante das dificuldades de se realizar a mudança estrutural, o compromisso político, um tanto quanto voluntarista e ético, das Cebs, está cedendo lugar a um compromisso mais amplo, levando em consideração a oração, a gratuidade da vida, a experiência da vida em comunidade. O compromisso se torna menos arrogante e, portanto, mais gratuito. Caminha na linha da doação, de entrega, e menos na linha impositiva.5.2.7. De uma Igreja patriarcal a uma comunidade familiar com rosto feminino.As Cebs sempre são reconhecidas por sua dimensão leiga e ministerial. A presença da mulher também sempre foi percebida. Mas hoje a compreensão do papel da mulher na sociedade e na Igreja deve oferecer mais espaço para a participação da mulher e refletir o rosto materno de Deus, através da sabedoria própria da mulher.

6. Espiritualidade de resistência e esperança.

É certo que estamos remando contra a corrente. Neste processo não pode haver desânimo, pois parar de remar significa voltar atrás. Não podemos deixar de manter as descobertas e conquistas já feitas. Frente ao novos desafios do neoliberalismo, temos que buscar novos caminhos, lembrando que caminhando se abre caminho! O neoliberalismo proclama o fim da história e o fim das utopias. Nós continuamos a acreditar que Deus é o Deus da História e, portanto, a história continua, pois Deus é maior. O neoliberalismo, através de seus intelectuais, afirma que quem quer o céu na terra, acaba construindo o inferno. Nós continuamos a reconstrução do céu, para poder transformar a terra! É preciso pensar o céu, para que a terra se torne, de novo, o paraíso! Volta do sonho bíblico tão caro à mentalidade semita. Busca da Terra sem males (Yvy marã ei), tão querida dos povos indígenas (Guarani Apapocuva). Sociedade sem Classes, apregoada pelos marxistas, e ainda por construir! Reino de Deus antecipado na terra, tema central dos cristãos e cristãs! As marcas da espiritualidade que deve sustentar o projeto de uma sociedade diferente e de um novo modelo eclesial são várias e importantes: espiritualidade encarnada na vida real, espiritualidade martirial, espiritualidade de busca-procura, espiritualidade utópico-poética, espiritualidade da gratuidade, espiritualidade contemplativa e, sobretudo em tempos de neoliberalismo, espiritualidade da esperança, para podermos vencer os ídolos da morte e indicar que o futuro da história já está assegurado na vitória do Ressuscitado sobre a morte e que a história tem um horizonte que não poderá ser retido por nenhuma força ou ídolo da morte! Esperar a novidade de Deus na história, por acreditar que esta vida é a mediação de nosso encontro com Deus. Amar a vida, amar o corpo, amar o mundo, amar a natureza e acreditar que a vida vence a morte, porque Deus é o Senhor da vida!

Certamente para viverem a mística e a espiritualidade libertadoras e terem espaço e credibilidade na sociedade, os cristãos/ãs e as Igrejas devem se posicionar frente ao sistema neoliberal excludente. Neste sentido, devem lutar contra toda exclusão (pois isto é ético, tem raízes bíblicas, é evangélico); estar ao lado da luta dos excluídos; colaborar no resgate da dignidade e da cidadania dos excluídos. Este enfrentamento exige assumir uma luta ideológica frente aos valores apresentados pelo sistema neoliberal: lucratividade, competitividade e rentabilidade e contrapor a eles os valores com enraizamento bíblico: gratuidade, solidariedade e partilha.

Neste sentido, a mística e a espiritualidade dos que assumem a luta do povo excluído, exigem a recriação da utopia de uma sociedade onde caibam todos e todas e da qual ninguém seja excluído(a). Como nos diz D.Pedro Casaldáliga, frente ao processo de exclusão, temos que afirmar o paradigma irrenunciável do êxodo: « Nem a esquerda nem a fé cristã podem renunciar ao paradigma ou aos paradigmas maiores. A justiça, a solidariedade, a partilha, a sobriedade, os direitos humanos, a igualdade e a alteridade simultaneamente das pessoas e dos povos, a libertação integral, o Reino de Deus - o paradigma do próprio Jesus - ... são o paradigma irrenunciável ».
Somos convidados, no engajamento com os pobres e excluídos, a recuperar as raízes espirituais e místicas do cristianismo, retomando o projeto libertador de Jesus Cristo e a Utopia do Reino (cf.Mc.1,14-15;Lc.4,16-30;Mt.11,2-6). Acreditar na força do Reino de Deus contra todas as forças da morte e ter confiança na construção da sociedade onde todos possam se sentir irmãos e irmãs na partilha dos bens (cf.At.2,42-47;4,32-35) e na convivência fraterna, onde Deus é o Deus de todos (cf.Apoc.21,1-7; Is.65,17-25). Então poderemos cantar com entusiasmo: "Ó Senhor, bendito sejas, Olorum, Tupã, Deus Mãe! Deus-conosco para sempre, Deus-conosco para sempre!"

Esta ação política dos cristãos e cristãs deve se pautar pela opção pelos pobres, pois o essencial é salvar a pessoa humana, especialmente a pessoa humana que está sendo excluída, pois Deus clama por meio dos excluídos: "Descobrir nos rostos sofredores dos pobres o rosto do Senhor (Mt,25,31-46) é algo que desafia todos os cristãos a uma profunda conversão pessoal e eclesial" . A opção pelos pobres é, em última instância, uma opção teológica. É isso que nos afirma G.Gutiérrez: "O motivo último do compromisso com os pobres e oprimidos não está na análise social que utilizamos, em nossa compaixão ou na experiência direta que possamos ter com a pobreza. Todas essas razões são válidas e desempenham um papel importante no nosso compromisso, porém, como cristãos, este se embasa fundamentalmente no Deus de nossa fé. É uma opção teocêntrica e profética que lança suas raízes na gratuidade do amor de Deus e é exigida por ela" . O pobre e o excluído são preferidos não ser serem moral ou religiosamente melhores, mas por causa do desumano de sua situação! A opção política dos cristãos deve decorrer dessa opção teológica. Os cristãos/ãs são chamados a transformar esta realidade injusta e, alicerçados na gratuidade de Deus, fazer com que esta opção teológica se torne radicalmente política, ao preservar o humano que está sendo destruído na pessoa dos pobres e excluídos, como também na natureza ameaçada.

7. Questões sobre a eclesialidade das CEBs

7.1. Eclesialidade e poder.

Notamos três eixos a serem pensados:

a) Eixo ideológico: As CEBs são uma forma moderna de organização frente a uma modernidade burguesa e uma modernidade socialista, como horizonte utópico. Hoje estamos frente à pós-modernidade, com um eixo de emoção. Como levar adiante a alegria de viver, a subjetividade sem perder a criticidade?
b) Eixo do imaginário católico: Este continua condicionando. Como repensá-lo diante de novas relações de:
             Gênero: homem e mulher.
             Étnica: culturas e etnias.
             Classe: fenômeno da exclusão.
c) Eixo da cidadania eclesial: Conforme o Vaticano II, todo cristão/ã se torna sujeito na Igreja, povo de Deus. A comunhão eclesial se realiza na medida em que as pessoas se tornam sujeitos.

7.2. Serviços, missão e mística.

- Em relação à formação de leigos/as, seminaristas, teólogos, padres: é preciso mudar o conteúdo e a metodologia deve ser adequada e comprometida com as bases: deve estar ligada à prática e com linguagem popular.
- Ligação da teologia com a base: A produção cientifica tem seu valor, mas precisa ser traduzida para a base.
- A renovação está difícil: Os novos padres estão em uma outra linha e há dificuldades para se renovar os quadros no meio popular.
- Os membros das CEBs bebem do catolicismo popular, mas hoje há uma outra exigência: Como seduzir os jovens com uma nova espiritualidade?
- Dificuldade entre o “ganhar o pão” e o compromisso de vida com as lutas.
- Serviços de solidariedade com: o mutirão nacional contra a miséria e a fome; pela terra; pela moradia; pela saúde; pelo emprego.
- As CEBs é que fazem as propostas da CNBB avançar e, no entanto, não há tanto apoio para elas.
- Valor do martírio presente nas bases.
- Como superar a violência, o crime, o narcotráfico que estão chamando os jovens? ( Com a Bíblia na mão e do outro lado o fuzil!).
- Tudo na CEB é colegial: Há uma democracia desde a base. Mas o modelo da Igreja Grande Instituição é outro. Não serio o caso de se produzir um diretório das CEBs legitimado pela CNBB? (Isto para dar estabilidade à vivência das CEBs).
- Repensar a formação dos novos padres: Formar para quê? Formar para o serviço do povo.
- repensar e apreender com a natureza (simplicidade e organização da Natureza e das CEBs).

7.3. Identidade, diluição e nova afirmação.

- Há vários modelos em choque: CEBs diluídas na Grande Igreja; CEBS em choque com outro modelo de Igreja; há lugares em que não se fala de CEBs , como aconteceu com o documento do Sínodo dos bispos – Ecclesia in América).
- Valor da articulação em rede – coordenação colegiada.
- Os jovens são chamados pelo provisório: Como encontrar uma pedagogia que dê continuidade?
- Autonomia das CEBs, inclusive do ponto de vista financeiro.
- Visibilidade das CEBs: mostrar a cara com elementos materiais e formais.
- As CEBs devem ir para a mídia: há experiências em várias dioceses.
- Importância das CEBs: são elas que levam adiante as propostas da CNBB. São boas para o serviço!
- Legitimidade das CEBs: Existem e devem ser legitimadas e propagadas para entrar no imaginário.
- Ocupar espaço na CNBB.
- Questão da institucionalidade das CEBs: Que tipo de institucionalidade? São apresentados três modelos: a) Organização livre (J. Comblin); b) Institucionalização a serviço das CEBs; c) Institucionalização a serviço dos bispos.

7.4 Síntese geral

7.3.1. Identidade e visibilidade das CEBs: Não só identidade teológica, mas também pastoral: voltar às fontes; memória; recuperar o Vaticano II.
7.3.2. Formação: Com um novo jeito; formar-se com os outros; laicato forte e protagônico (retomar os Documentos que falam sobre este protagonismo dos leigos e leigas na Igreja); novos ministérios e renovar os antigos na ótica da Igreja-serviçp.
7.3.3. Mística e espiritualidade das CEBs: Paixão como fonte de ação; voltar às fontes; leitura orante da Bíblia; o Espírito é a fonte da mística; perseverança e resistência; a onda Lula abre espaço para o relançamento das CEBs e sua mística.
7.3.4. Missionariedade: Partir para a missão; ampliar a rede das CEBs; CEBs itinerantes no meio dos pobres, no Fome Zero, no apoio aos projetos populares, junto aos assentamentos, aos sem teto, sem terra; presença na mídia, com competência e mostrando a cara na rua.
7.3.5. Jovens: Novo acesso aos jovens; seduzir os jovens, com emoção e mostrando o sentido da vida; respeitar a diversidade dos jovens; dar espaço de representação; dar espaço para as tarefas feitas pelos jovens.
7.3.6. Reforço da organização em rede: organização a nível nacional, com uma estrutura mínima de referência, com uma institucionalidade mínima; com uma pagina na internet.
7.3.7. CEBs e Eucaristia: uma comunidade cristã não sobrevive sem a celebração eucarística; nova forma de celebrar com novos ministérios; hospitalidade eucarística e inter-comunhão; Eucaristia e CEBs: necessidade pastoral dos fieis (exigência apontada pelo Vaticano II) – Quais as formas concretas de encontrar caminhos para a celebração ordinária da eucaristia? A Eucaristia é a fonte da comunidade: O que os bispos da América Latina estão fazendo para resolver a questão da participação na eucaristia? Formação litúrgica: necessidade pastoral e a celebração dos sacramentos. Não seria possível outras formas de celebração: unção dos enfermos, penitência, com outras formas de ministérios?

8. Alguns pontos de fundo para dar horizontes à caminhada das CEBs

8.1. Nova estrutura para um novo modo de ser Igreja: É preciso pensar historicamente, pois a questão da Igreja é uma questão de séculos. Somos um bilhão e 200 milhões de católicos. O desafio é gigantesco. As CEBs são uma pequena parcela , mas marcaram a Igreja a partir da América Latina e dos pobres, com sua centralidade. Este processo é irreversível (cf. LG. Capítulo II; EM., 58). Podemos repensar as diferentes reformas no interior das Igrejas: Reforma de Gregório VII; Lutero; Vaticano II. Para uma nova estrutura é preciso ter critérios bíblicos e teológicos (Bíblia, Tradição, Estrutura sacramental, estrutura pastoral-hierárquica (com possível mudança nas formas) – Esses são os elementos essenciais da natureza da Igreja e há os elementos conjunturais que podem mudar: forma de nomeação; celibato, formas de ministérios, etc... O vinho novo que é Cristo, poder ser bebido em canecas velhas, mas deve ser adequado às novas estruturas. Yves Congar, ao falar sobre a verdadeira e falsa reforma da Igreja (1968), aponta quatro critérios para uma verdadeira Reforma da Igreja:PASTORES
(Aprovação por parte dos pastores)
FUNDAMENTAÇÃO POVO
NA BÍBLIA (Ter uma base popular)
(Sonho de Jesus)
RITMO HISTÓRICO
(Condições históricas -momento propício)
8.2. Minoridade das CEBS dentro da Grande Igreja Instituição: As CEBs são minorias abraâmicas. São comunidades pequenas e proféticas. Ainda estamos na afirmação errada do “o modo novo de toda Igreja ser”. Isto é impossível do ponto de vista sociológico e não desejável do ponto de vista teológico, pois o pluralismo é saudável e o universalizável é o modo, a forma de ser, de partilhar, a comunitariedade. Por isso, temos que qualificar o trabalho das CEBs. Pela minoridade, as CEBS devem aceitar os outros, através de um novo paradigma da dialogação (dialogar com todo mundo). Devemos ser pericoréticos, a exemplo da Trindade.
8.3. Reconhecimento jurídico das CEBs: Para desativar o potencial autoritário do direito canônico; com a lei se garante a continuidade da experiência eclesial das CEBs.
8.4. Espiritualidade: É preciso enfocar melhor, pois há um certo espírito funcional, utilitarista; a espiritualidade deve estar ligada ao amor, à gratuidade, ao mistério, à contemplação. A espiritualidade deve se articular com o sentido da vida: deve levar à justiça, mas também à alegria de viver, superar a pobreza material, mas também a pobreza espiritual, que pode levar ao nihilismo (Camus e Kafka). É preciso mudar o mundo, reencantar o mundo. Ter pão e belo!